domingo, maio 28

Domingo da Ascenção | Dia da Espiga

Mais uma vez fizémos a nossa Caminhada.
Quisémos rumar, de novo, ao Penedo de Góis. Esse que há dois anos nos impediu de o percorrer, tendo-se banhado de chuva e iluminado a nossa tarde com trovoada... obrigou-nos a ficar na Escola/Associação de Povorais, onde celebrámos com pessoas da aldeia.
Desta vez, voltámos a juntar os amigos em Góis e repetimos o almoço partilhado à porta da Escola/Associação de Povorais... no final, avançámos para a conquista do Penedo.
Começámos, então a subida



A actualização segue dentro de momentos...

... continuação (finalmente)


Subimos, subimos...
De quando em quando parávamos para contemplar, para rezar, reflectir, ...
Fomos, também, repetindo um refrão que se tornou o mote da subida:

A vida é como uma estrada
que vai sendo traçada
sem nunca arrepiar caminho!
E quem pensa estar parado
vai no sentido errado

a caminhar sozinho.

José Mário Branco, «Do que um homem é capaz», Resistir é Vencer, 2004




A proximidade da trovoada afastou-nos, mais uma vez, do cume do Penedo!
A terceira será de vez?!

domingo, maio 7

Dia da Mãe

Celebrámos a Mãe! Todas as Mães! A de cada um!
Quisémos cantar, rezar, escutar o silêncio, saborear gestos e palavras, poemas e imagens, oferecidos por todos e cada um à sua Mãe! E à Nossa Mãe!
Começámos por fazer a Festa do Acolhimento!... cantada por Pavarotti!


Mamma
(C. A. Bixio, B. Cherubini)
Mamma, son tanto felice
perchè ritorno da te.
La mia canzone ti dice
che'è il più bel giorno per me!
Mamma, son tanto telice...
Viver lontano, perchè?

Mamma...
Solo per te la mia canzone vola!
Mamma...
Sarai con me, tu non sarai piu sola!
Quanto ti voglio bene!
Queste parole d'amore,
che ti sospira il mio cuore
forse non s'usano più...
Mamma...
Ma la canzone mia più bella sei tu!
Sei, tu, la vita,
E per la vita non ti lascio mai più!

Sento la mano tua stanca
cerca i miei riccioli d'or.
Sento... e la voce ti manca
la ninna nanna d'allor.
Oggi la testa tua bianca
io voglio stringere al cuor!

Mamma...
Solo per te la mia canzone vola!
Mamma...
Sarai con me, tu non sarai piu sola!
Quanto ti voglio bene!
Queste parole d'amore,
che ti sospira il mio cuore
forse non s'usano più...
Mamma...
Ma la canzone mia più bella sei tu!
Sei, tu, la vita,
E per la vita non ti lascio mai più!

Mamma... mei più!



Como Kyrie, rezámos

POEMA À MÃE
eugénio de andrade
[Póvoa de Atalaia, 1923-2005]

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha – queres ouvir-me? –
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda ouço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio do laranjal...


Mas – tu sabes – a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.



Na partilha, quisémos mostrar bocadinhos de história de algumas das mães da Comunidade ou de outras comunidades que encheram as nossas vidas...

De seguida rezámos o Credo que foi publicado na Viragem


Creio em um só Deus
que nos criou a todas e a todos
e cuja divindade impregna toda a vida
de sagrado.

Creio nas múltiplas revelações
deste Deus
que vive em cada coração humano,
que se exprime em todas as culturas
e se encontra em todas as sabedorias do mundo.

Creio
que Jesus Cristo,
o filho único de Deus,
é o rosto de Deus
na Terra
em quem podemos ver melhor
a justiça divina
a misericórdia divina
a compaixão divina
à qual somos chamados.

Creio em Cristo
que é um com o Criador,
que nos mostra a presença de Deus
em tudo o que existe
e desperta em nós o sagrado.

Creio em Jesus, o Cristo
que nos conduz à plenitude
da estatura humana,
à qual fomos chamados
antes do começo da História
e por que todas as outras coisas foram feitas.

Por Cristo
tornamo-nos seres novos
chamados a ultrapassar os limites
do nosso ser imperfeito
e elevados à plenitude da vida.

Pelo poder do Espírito Santo
nasceu da Virgem Maria,
alma pura
e coração íntegro –
sinal para as gerações vindouras
do lugar eminente da feminilidade
no desígnio de Deus
para a salvação da humanidade.

Cresceu como nós crescemos
conheceu as idades da vida.
Viveu como nós vivemos,
sujeito às pressões do mal
e centrado no bem.
Ele não rompeu com o mundo
ao qual estava ligado
Não pecou.
Nunca se afastou do pensamento de Deus.
Indicou-nos a Via,
viveu-a por nós
sofreu-a
morreu por ela
para que pudéssemos viver
com um coração novo,
segundo uma mentalidade nova
e com uma força nova
apesar de todas as mortes
a que somos sujeitos todos os dias.

Por nossa causa
e da verdade eterna,
foi perseguido,
atormentado
e executado
por aqueles
que eram os seus próprios deuses
e não respeitavam o sagrado
em ninguém.

Ele sofreu para que pudéssemos compreender
que o espírito em nós
não pode ser morto
qualquer que seja o preço que tenhamos de pagar
para permanecer fiéis ao espírito de Deus.

Morreu
mas não está morto
porque vive em nós
ainda hoje.

"Ao terceiro dia", no sepulcro,
Ele ressuscitou
naqueles que deixava atrás de si
e também em cada um e cada uma de nós
para viver nos corações
que não hão-de sucumbir
perante os inimigos da vida.

Ele mudou a vida toda
para todas e para todos nós, daí em diante.

Subiu à vida de Deus
e aí espera a nossa própria ascensão
à vida para além da vida.

Ele aí espera
julga o que foi
e o que será
segundo os seus valores
e, em nome da virtude eterna,
para o tempo em que toda a vida
será reunida em Deus,
plenitude de vida e de luz,
fundada na verdade.

Creio no Espírito Santo
O sopro de Deus
sobre a Terra
que sem cessar propõe a visão de Cristo
às almas ainda nas trevas,
que dá a vida
mesmo aos corações ainda cegos.
Ele infunde a energia
aos espíritos ainda toscos, isolados
à procura e confusos.

O Espírito falou
ao coração humano
pelos profetas
E dá um sentido novo
à Palavra
através da História.

Creio na Igreja una
santa e universal.
Cimentada pela santidade da criação
e pela santidade dos corações para sempre fiéis.

Reconheço a necessidade
de ser libertada dos constrangimentos
da minha vida agitada
e de receber o perdão
por causa da minha fraqueza.

Procuro a vida eterna
sob formas que nem sonho
e tenho a convicção
de que a criação continua a criar
neste mundo
e em nós
para sempre.
Ámen.

Ámen à criação, ao Deus que é vida, à coragem; à esperança, ao espírito de verdade, à natureza, à felicidade, à integridade, ao lugar das mulheres no plano de Deus, a Cristo que nos chama a ultrapassar os nossos limites, ao perdão, a tudo o que faz da vida o primeiro passo na expansão do nosso coração nas dimensões de Deus.
Ámen. Ámen. Ámen. Podemos com certeza acreditar em tudo isto.
Tal como Deus fez.


Joan Chittister, Ce que je crois, Editions Bellarmin, 2002 (edição francesa de In Search of Belief, Publications Liguori, Mo., USA)
Tradução de Maria de Carvalho Torres publicada em Viragem (Revista do Metanóia – Movimento Católico de Profissionais), Lisboa, nº 50-51 | Maio-Dezembro de 2005



Quisémos, ainda, partilhar outros testemunhos:

Excerto de um email do poeta açoreano, Eduardo Bettencourt, ao escritor, também açoreano, Onésimo Teotónio Almeida, anunciando o nascimento do seu primeiro filho, Mauro.
Onésimo refere este email numa das suas dia-crónicas, publicadas na revista Ler, como um dos exemplos que elevam o email à categoria de texto literário.

Antes que me esqueça, tenho a alegria de te dizer que já sou pai. Nasceu-nos um rapazinho no dia 26 do mês passado. Chama-se Mauro. Enquanto escrevo ele dorme mais a Rosa, lado a lado. Foi uma luz que nos entrou pela casa dentro, cheia de música e insónia. Do seu nascimento guardo a memória de horas incendiadas e intermináveis, o palpitar indelével dum sentimento inebriado de sofrimento. A mulher, com a sua graciosidade, magia e misticismo, traz na sua vida a exuberância, a sensibilidade, uma insuspeitada coragem e determinação para suportar aqueles densos momentos de vulcânicas dores. A mim só me restam os olhos húmidos, a garganta sem voz frente à grandeza de um acontecimento que num repente transforma o mundo, o instante da eternidade. (...) A vida é a mais lógica e misteriosa equação da alma.


Mãe
Mãe
tu és bela como uma rosa.
Não cubras a tua beleza
com pano preto
mas sim
com rosas brancas.
Não cubras a simpatia
com a antipatia
mas sim com um sorriso.

Mãe
tu és uma estrelinha
no céu que ilumina toda a minha vida.
Não te dou um cravo ou uma rosa
porque não tenho jardim,
mas dou-te a flor do meu amor
tão bela tão bela
para quem sabe amar
tanto como tu.


Maria Auxiliadora - 11 anos
in "Cabo Verde visto pelas crianças"



Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora.
Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem?
Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lavacolhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grândola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.


excerto de José Mário Branco, FMI, 1982


Mulher com filha ao colo, em Dezembro
Onde quer que esteja a mãe
debruçada sobre a filha
o Natal pousa
e repousa

Nos longos dedos da mãe
sobre os cabelos da filha
o Natal mora
e demora

Filha dormida na mãe
repetição de Belém
o Natal feito
e perfeito


Depois, rezámos com D. Hélder Câmara, na Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento e D. Pedro Casaldáliga:

Invocação à Mariama
Mariama, Nossa Senhora, mãe de Cristo e Mãe dos homens!
Mariama, Mãe dos homens de todas as raças, de todas as cores, de todos os cantos da Terra.
Pede ao teu filho que esta festa não termine aqui, a marcha final vai ser linda de viver.
Mas é importante, Mariama, que a Igreja de teu Filho não fique em palavras, não fique em aplausos.
O importante é que a CNBB, a Conferência dos Bispos, embarque de cheio na causa dos negros. Como, como entrou de cheio na pastoral da terra e na pastoral dos Índios.
Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem.
Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão, que é comunismo. É Evangelho de Cristo, Mariama.
Mariama, Mãe querida, problema de negro acaba se ligando com todos os grande problemas humanos.
Com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões.
Mariama, que se acabe, mas se acabe mesmo a maldita fabricação de armas. O mundo, o mundo precisa fabricar é Paz. Basta de injustiças!… de uns sem saber o que fazer com tanta terra e milhões sem um palmo de terra onde morar.
Basta de uns tendo que vomitar para comer mais e 50 milhões morrendo de fome num ano só.
Basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia.
Mariama, Senhora Nossa, Mãe querida, nem precisa ir tão longe, como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e o pobres de mãos cheias.
Nem pobre nem rico!
Nada de escravo de hoje ser senhor de escravos amanhã. Basta de escravos. Um mundo sem senhores e sem escravos. Um mundo de irmãos!
De irmãos não só de nome e de mentira. De irmãos de verdade, Mariama!


D. Hélder Câmara


Por fim, acabámos embalados pela Beatriz (coalhada de luz!) que nos cantou:

A Ana quer
A Ana quer
nunca ter saído da barriga da mãe;
cá fora está-se bem
mas na barriga da mãe
era divertido:
coração ali à mão,
os pulmões ali ao pé,
ver como a mãe é
do lado que não se vê.

O que a Ana mais quer ser
quando for grande e crescer
é ser outra vez pequena:
não ter nada que fazer,
só ser pequena e crescer,
de vez em quando nascer
e voltar a desnascer.
A Ana quer...

domingo, abril 30

Baptismo da Sofia

Como nos ensinou em tempos o Zé Dias, "o Baptismo é sempre um gesto comunitário em que está comprometida a Igreja local e, com ela, a Igreja universal".
A Sofia é hoje acolhida na nossa Comunidade João XXIII, da qual quer fazer parte e porque os seus pais acreditam que, nesta comunidade, "o Espirito Santo torna presente e actual a salvação de Jesus Cristo".
A Sofia vai crescer também na Sala da Luz, como têm vindo a fazer a Sara, a Carolina ou o Luís, e em tempos o fizeram o David, a Luísa, a Rita e muitos outros.
À Sofia queremos dizer hoje que é bem vinda à Sala da Luz. Que acreditamos que em havendo luz, há vida e esplendor – no riso das crianças e no seu olhar; numa caminhada pelos montes ou numa refeição partilhada; num arco-íris criado num vaso de água ou numa vela acesa; nos versos da Sophia ou num quadro de Botticelli.
Por isso, às vezes, damos menos importância ao rito e mais relevância à procura sincera e profunda de Deus e do seu Mistério. Muitas vezes em nós próprios, num caminho difícil, de silêncios ou partilha, de momentos mais sombrios ou mais luminosos.
Sofia, vamos pedir-te para fazer um desenho ou para trazeres uma flor. Acreditamos que vendo-te crescer também nós cresce[re]mos contigo
E como símbolo deste acolhimento que te queremos fazer hoje, gostaria de te beijar os pés, como gesto que quer significar que vamos ser companheiros de uma longa viagem.

S. Martinho do Bispo, 30 de Abril de 2006


Foi este o Compromisso que a Comunidade, pelas palavras, voz e gestos da Carminho, assumiu hoje com a Sofia!... E foi esta a imagem que lhe oferecemos!

Jean-Baptiste Camille Corot, O Baptismo de Cristo 1844-45, Óleo sobre tela, 385 x 205 cm.
Igreja de Saint-Nicolas-du-Chardonnet, Paris, França.

sexta-feira, abril 21

A paciência da Esperança

Palavras do Samelo, na Celebração da páscoa da sua Mãe Isaltina

Do meu pai, Laurindo, que teve a sua páscoa há 33 anos, recebi o desafio de, como padre, ser uma pessoa pública, sobre quem todos têm uma opinião, positiva ou negativa.
Da minha mãe, Isaltina, que tem a sua páscoa hoje, recebi 3 desafios:
– O primeiro: a paciência da esperança;
– O segundo: o de viver a existência cristã como meio de realização e felicidade — várias vezes me dizia: «filho, estás à vontade: vale mais ser um bom cristão, do que um mau padre!»;
– O terceiro: o de compreender que na Igreja da Santíssima Trindade a minha identidade de padre é relacional: sem deixar de ensinar, tenho muito que aprender; sem deixar de governar, tenho que pôr cada vez mais em prática estruturas de decisão com os outros cristãos; sem deixar de presidir à vida litúrgica, já não sou o único animador.
É que na Igreja da Santíssima Trindade todos os seus membros são irmãos iguais em dignidade, diferentes nas funções e solidários na responsabilidade.
Este terceiro desafio deu-me a minha mãe porque foi militante da Acção Católica Rural, nos tempos do saudoso Pe Saúde.
Pelo dom dos meus pais, Louvado seja Deus!


Álvaro Pires de Évora, Cristo Ressuscitado, c. 1430,
Têmpera sobre madeira, 106 x 76 cm, Szépmüvérzeti Museum,
Budapeste, Hungria.

domingo, abril 16

Páscoa

Cristo Ressuscitou, Aleluia!


Todor Mitrovic (Sérvia), The Resurrection of Christ - Descending into Hell, 2002,
Acrílico sobre madeira.

domingo, abril 9

Domingo de Ramos

Fizémos a nossa Benção dos Ramos no átrio da Sala da Luz; entrámos para a Celebração ao som de Hossana, de Jesus Christ Superstar,

Crowd
Hosanna Heysanna Sanna Sanna Ho
Sanna Hey Sanna Ho Sanna
Hey J C, J C won't you smile at me?
Sanna Ho Sanna Hey Superstar

Caiaphas
Tell the rabble to be quiet
We anticipate a riot
This common crowd
Is much too loud
Tell the mob who sing your song
That they are fools and they are wrong
They are a curse
They should disperse

Crowd
Hosanna Heysanna Sanna Sanna Ho
Sanna Hey Sanna Ho Sanna
Hey J C, J C you're alright by me
Sanna Ho Sanna Hey Superstar

Jesus
Why waste your breath moaning at the crowd?
Nothing can be done to stop the shouting
If ev'ry tongue was still the noise would still continue
The rocks and stones themselves would start to sing:

Crowd, with Jesus
Hosanna Heysanna Sanna Sanna Ho
Sanna Hey Sanna Ho Sanna
Hey J C, J C won't you fight for me?
Sanna Ho Sanna Hey Superstar


Escolhemos uma obra de Giotto para enriquecer este momento



Giotto di Bondone (1267-1337), Scenes from the Life of Christ: Entry into Jerusalem, 1304-06,
Fresco, 200 x 185 cm, Cappella Scrovegni (Arena Chapel), Padua


Depois de rezado o Evangelho de hoje, que relata todos os passos da Paixão e Morte de Jesus Cristo, iniciámos a nossa partilha com a riqueza de mais duas obras maiores da história da Arte: O Sacramento da Última Ceia, de Salvador Dali, e a Pietà Rondanini, de Miguel Ângelo



Salvador Dalí (1904-1989), The Sacrament of the Last Supper, 1955, Óleo sobre tela, 166.7 x 267 cm,
Chester Dale Collection, National Gallery of Art, Washington, D.C.





Michelangelo Buonarroti (1475-1564), Pietà Rondanini,1552-64, Mármore, alt. 195 cm, Castello Sforzesco, Milan


Sobre esta peça, de uma contemporaneidade impressionante (alguém que não conheça não dirá que esta escultura é da segunda metade do século XVI...), apenas importa sublinhar que foi a última obra realizada por Miguel Ângelo; sobre o carácter inacabado da peça, pensa-se hoje que o artista quis que fosse assim mesmo... se se reparar, à esquerda da imagem aparece um outro braço, de um primeiro corpo de Cristo ("perfeito"...) que, entretanto, o artista abandonou. "The unity between Mother and Son is even more intimate. It is almost impossible to tell whether it is the Mother supporting the Son, or the Son supporting the Mother, overcome by despair..." pode ler-se num comentário muito apropriado, retirado na net...


Antes da Oração Eucarística, rezámos, ouvindo, o The Last Supper (Jesus Christ Superstar)

Apostles
Look at all my trials and tribulations
Sinking in a gentle pool of wine
Don't disturb me now I can see the answers
Till this evening is this morning life is fine
Always hoped that I'd be an apostle
Knew that I would make it if I tried
Then when we retire we can write the gospels
So they'll still talk about us when we've died

Jesus
The end . . .
Is just a little harder when brought about by friends
For all you care this wine could be my blood
For all you care this bread could be my body
The end!
This is my blood you drink
This is my body you eat
If you would remember me when you eat and drink . . .
I must be mad thinking I'll be remembered - yes
I must be out of my head!
Look at your blank faces! My name will mean nothing
Ten minutes after I'm dead!
One of you denies me
One of you betrays me

Apostles
Not I! Who would? Impossible!

Jesus
Peter will deny me in just a few hours
Three times will deny me - and that's not all I see
One of you here dining, one of my twelve chosen
Will leave to betray me -

Judas
Cut out the dramatics! You know very well who -

Jesus
Why don't you go do it?

Judas
You want me to do it!

Jesus
Hurry they are waiting

Judas
If you knew why I do it . . .

Jesus
I don't care why you do it!

Judas
To think I admired you
For now I despise you

Jesus
You liar - you Judas

Judas
You wanted me to do it!
What if I just stayed here
And ruined your ambition?
Christ you deserve it!

Jesus
Hurry you fool, hurry and go,
Save me your speeches
I don't want to know - Go! Go!

Apostles
Look at all my trials and tribulations
Sinking in a gentle pool of wine
What's that in the bread it's gone to my head
Till this morning is this evening life is fine
Always hoped that I'd be an apostle
Knew that I would make it if I tried
Then when we retire we can write the gospels
So they'll all talk about us when we've died

Judas
You sad pathetic man - see where you've brought us to
Our ideals die around us and all because of you
But the saddest cut of all -
Someone has to turn you in
Like a common criminal, like a wounded animal
A jaded mandarin
A jaded mandarin
Like a jaded, faded, faded, jaded, jaded mandarin

Jesus
Get out! They're waiting! Get out! They're waiting!
Oh! They're waiting for you!

Judas
Everytime I look at you I don't understand
Why you let the things you did get so out of hand
You'd have managed better if you'd had it planned -
Ah --- ah

Apostles
Look at all my trials and tribulations
Sinking in a gentle pool of wine
What's that in the bread it's gone to my head
Till this evening is this morning life is fine
Always hoped that I'd be an apostle
Knew that I would make it if I tried If I tried
Then when we retire we can write the gospels
So they'll still talk about us when we've died

Jesus
Will no-one stay awake with me?
Peter? John? James?
Will none of you wait with me?
Peter? John? James?



Finalmente, valerá a pena juntarmos aqui a crónica de Frei Bento Domingues publicada, hoje, no Público

Um partido do Papa?
O correspondente em Roma do jornal "El País" (03.04.2006) noticiava, com grande destaque, que um sector do centro-direita italiano, apoiado pelo próprio Berlusconi marcou o nascimento de uma força política que, à falta de um nome concreto, poderia chamar-se "Partido do Papa". O presidente do Senado, Marcello Pera, reuniu em Bolonha três mil pessoas para lançar um movimento teoconservador baseado explicitamente nas ideias de Bento XVI e na "defesa dos valores cristãos do Ocidente". Assegurou que a iniciativa não se esgotaria nas actuais eleições legislativas de Itália.
De facto, no discurso de Marcello Pera é dito: "Só um grande homem teve a coragem de olhar de frente esta crise, de a denunciar e de apelar a minorias criativas, como a que, hoje, se reúne aqui, com o fim de que façam o necessário para superar esta crise. Este homem é Bento XVI." É inevitável a pergunta: terá o Papa um partido político ou estaremos perante um partido que deseja Bento XVI ao seu serviço?
Fui verificar todos os documentos disponíveis e não se pode ignorar uma certa ambiguidade, a começar por ver textos do cardeal Ratzinger como se fossem de Bento XVI(1). Na era da globalização dos negócios, facilitada pelas novas tecnologias, é fundamental continuar a ideia de João Paulo II de uma globalização da solidariedade. E se o Papa renunciou ao título de "Patriarca do Ocidente", não me parece que vá agora confundir-se com o ideário e a prática de um partido votado, apenas, à defesa do Ocidente... A Igreja Católica nasceu no Oriente, deixou de ser eurocêntrica e repugna à sua essência identificar-se com uma etnia, com um país ou um continente.
2. Não defendo, no entanto, o afastamento da política como se ela fosse, por natureza, uma actividade suja e imprópria para consumo de gente com valores e preocupações éticas. Desejo, pelo contrário, que haja cada vez mais católicos movidos por preocupações sociais, a intervir na política para que ela procure tornar possível a promoção da justiça e da paz. A política democrática terá tudo a ganhar em tornar-se verdadeiramente cristã. Não como partido confessional, mas para ser, como dizia Robert Kennedy, "uma maneira de nos darmos aos outros". Daí a importância da publicação, em português, de uma obra sobre dez políticos notáveis do século XX, formados na fé católica(2).
3. Por sinal, a mistura da religião e da política, de forma consciente ou inconsciente, vai percorrer a celebração da Semana Santa. Mais ainda, Jesus ficou – contra a sua vontade e para sempre – com um título político-religioso colado ao seu nome. O título Cristo vem do grego "Christos", que, por sua vez, é tradução do hebreu "Mashiah", que significa "ungido", sagrado (os reis judeus eram ungidos). "Messias" é a tradução portuguesa. Dizer que Jesus é o Cristo ou o Messias é rigorosamente a mesma coisa. Mas de que messianismo se trata?
Na próxima semana, os cristãos (os "messiânicos") celebram o desfecho de todos os equívocos que acompanharam a intervenção pública de Jesus. Começou por vencer as tentações messiânicas – tentações do casamento do poder económico, político e religioso – que ele interpretou como satânicas. Visavam todas o poder de dominar a título de caminho de libertação. Quem, depois, o passou a tentar foram aqueles que ele próprio escolhera para levar avante o seu projecto de mudar a mente e o coração dos seus contemporâneos. Este programa subversivo está expresso nas "Bem-aventuranças" (Mt 5 e paralelos).
Jesus chamara-os para um projecto e eles sonhavam, continuamente, com outro. De nada serviu uma reunião de urgência para desfazer todos os equívocos e convencer os Doze Apóstolos de que o Mestre não dispunha de "tachos', para ninguém, nem sequer para aqueles que oferecessem a vida por um mundo onde não houvesse nem dominadores nem dominados, mas apenas irmãos: "Aquele que dentre vós quiser ser grande seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos" (Mc 10, 23-45).
4. Jesus tinha distinguido a política da religião, tinha manifestado, de forma radical, que o Templo e tudo o que andava à volta dele se tinha transformado num grande negócio, uma ofensa a Deus e aos pobres, uma traição aos profetas.
A entrada de Jesus em Jerusalém, celebrada hoje, Domingo de Ramos, é o paradigma de todas as ilusões que a próxima semana vai desfazer da forma mais cruel. Aclamam-no como o novo rei David, o rei messiânico, a presença visível do braço de Deus que os salva da humilhante ocupação romana. Não viram que a revolução de Jesus, expressa nas "Bem-aventuranças", é mais do que uma mudança de donos do povo. Resultado: Jesus, aquele que queria reunir todos os filhos de Deus dispersos, vai ficar só, no completo abandono entre o céu e a terra. E entregue pelos sumos sacerdotes ao poder ocupante porque viam nele uma ameaça para a religião política do Templo e seus negócios; é denunciado pelos zelotas desesperados diante da insurreição que não acontece; é abandonado pela multidão e pelos discípulos decepcionados porque não vêem naquele galileu a presença vitoriosa de Deus, mas um vencido na cruz da maldição. Restam algumas mulheres e alguns que pressentem que quem perde a vida, pela vida dos outros, inaugura, na própria morte, um mundo novo.
Apetece-me deixar, aqui, um fragmento de um poema de George Steiner: "A morte não é dona das cidades, / Nem eterna a meia-noite / O coração é um subúrbio da esperança / Uma primeira pausa na fronteira."
Precisamos de trabalhar por um mundo sem fronteiras, pela reunião dos povos, pelo abandono da política das grandes potências presentes e futuras. Jesus, na cruz, rompeu com a última das fronteiras: a morte.

(1) Marcello Pera e Joseph Ratzinger, Senza radici. Europa, relativismo, cristianesimo, Islam, Roma, Mondadori 2004.
(2) Gustavo Villapalos / Enrique San Miguel, O Evangelho dos Audases, Gráfica de Coimbra, 2006