Segunda-feira, Novembro 23

Cristo Rei

Que poder temos? o que dele fazemos?
Foi este o desafio que a Carminho e o José Pureza nos lançaram... a partilha foi rica e intensa, tendo versado diversos dos poderes com que lidamos: o de liderar equipas e/ou instituições, o de influenciar os poderes institucionais pela via da participação cívica,...
Mas foi com muito agrado que registámos uma das notícias deste fim-de-semana: o encontro de Bento XVI, em Roma, com mulheres e homens da cultura. Escritoras/es e músicas/os, arquitectas/os e poetisas/as, cineastas e pintoras/es, mais próximos ou mais distantes da Igreja, tod@s foram convocados pelo Papa, que usou o seu poder para estabelecer pontes, construindo um diálogo rico e fecundo com um mundo tantas vezes, e de modo especial no último século, malquisto (bastará lembrar o episódio mais recente, vivido em Portugal).

Fica aqui, ainda, uma outra reflexão, descoberta no http://religionline.blogspot.com/
Para a semana lá nos encontraremos para celebrar o primeiro domingo do Advento.
Começaremos, então, a caminhada para o Natal.

Tragam um/a amig@, também.
Uma boa semana para tod@s.

croireTV : Christ, Roi de l'univers - Croire

(Comentário de Jean-Luc Ragonneau, redactor de Croire Aujourd'hui)

Sábado, Novembro 21

Apocalipse

Retomámos as nossas celebrações há algum tempo.

No passado Domingo o Samelo ensinou-nos que o Apocalipse é o anúncio da esperança para o tempo presente.

Por isso mesmo, e apesar de já ter passado há algum tempo (do tamanho de um grão de mostarda ou talvez menos...), aqui vos deixo três pequenos textos: dois da Cila e do Zé Filipe, outro do Samelo, todos do Casamento que a Cila e o Zé Filipe celebraram tendo o Samelo e mais umas dezenas de Amigos por testemunhas (27.Junho.2009). Porque tratam, cada um à sua maneira, de anunciar a esperança.

"Boas vindas
Queremos agradecer, do fundo do coração, a presença de cada um de vós, aqui hoje.
A escolha do lugar para realizar o nosso casamento, como tivemos a oportunidade de dizer a alguns dos presentes, recaiu sobre esta igreja para facilitar a vossa chegada cá, sobretudo dos que não conhecem Aveiro. No entanto, quando viemos conhecer este espaço, percebemos que nos identificamos bastante com esta igreja, do arquitecto Luís Cunha.
Os bancos estão dispostos em semi-círculo e em anfiteatro, tornando as pessoas mais próximas. No projecto inicial havia apenas a imagem de Nossa Senhora e este Cristo de espelho para que nos possamos rever Nele. A igreja é simples, despojada de ostentação e riqueza, mais próxima da realidade das duas povoações que acolhe. Estamos contentes com a escolha deste lugar, agora descoberto o seu estilo, pós-Concílio Vaticano II. Como o Samelo gosta de lembrar “nada acontece por acaso”.
Vamos ainda explicar brevemente o sentido que demos a esta celebração.
Pois bem, como é evidente, estamos aqui porque somos crentes, porque afirmamos acreditar em Deus, no Deus de Jesus Cristo. Para nós acreditar em Deus é acreditar que a nossa história não é em vão. Isso dá-nos uma responsabilidade especial sobre a nossa própria vida. Como dizia o Jorge de Sena, achamos que devemos viver com uma “fiel dedicação à honra de estar vivo”. Descobrirmos que nos encontros e desencontros das nossas vidas alguma coisa mais preciosa emerge – aquilo a que Jesus chamava o Reino de Deus, já não com um sentido apocalíptico, mas com um sentido libertador. A sua morte e ressurreição mostram-nos qual o Reino de que se fala: viver a vida com sentido até ao fim. Nós temos muitas vezes essa intuição nos momentos mais felizes e por vezes também nos momentos mais tristes: a vida só se ganha se formos capazes de a oferecer aos outros, sabendo que nada é em vão.
Foi assim que aprendemos a olhar para a vida e é assim que queremos continuar a vivê-la a dois. Por isso viemos aqui celebrar o nosso casamento. Esta missa, que preparámos muito ao nosso jeito, será provavelmente a melhor forma de explicação do que queremos dizer e do que queremos viver. E então, celebremos!"

"Homilia*
Antes de passarmos ao rito do matrimónio, gostávamos de vos dizer duas ou três coisas sobre esse momento, sobre o que ele significa para nós, no fundo sobre o que queremos que seja o nosso casamento. E vamos fazê-lo de forma muito simples, exprimindo alguns desejos que têm muito a ver com os textos que acabámos de ouvir.
Primeiro desejo: queremos que o nosso projecto de vida a dois seja um projecto aberto. Aberto à novidade de um Deus que nos surpreende, aberto à solidariedade para com todos, aberto a um projecto muito mais vasto que é o projecto de Deus para a felicidade das pessoas. Como nos diz o poema da Rita: queremos “encher tudo de futuros”, queremos construir possibilidades novas, queremos transformar os nossos sonhos e esperanças em realidade. Queremos que o nosso projecto de vida a dois seja também uma forma modesta de participação no que Jesus chamava o Reino dos Céus.
O texto do Evangelho que escolhemos, conhecido por “Sermão da Montanha”, é talvez um dos textos mais belos da história humana, onde Jesus explica qual é esse Reino que ele anunciava: um reino para os simples e generosos, onde haverá consolo para os que choram, um reino de paz, de verdade e de justiça. Como dizia Umberto Eco, mesmo que Deus não exista, o facto de a humanidade O conceber com um projecto tão maravilhoso de amor e esperança é por si só um motivo de espanto e crença na humanidade. É esse projecto de amor, de esperança e liberdade que queremos viver a dois.
Segundo desejo: queremos que este compromisso seja para nós e para todos um motivo forte de alegria. A alegria não é somente contentarmo-nos com alguma coisa boa momentaneamente. Também não é pintarmos o mundo de cor-de-rosa. A alegria de que falamos não é propriamente um sentimento, mas antes uma forma de encarar a vida, alegre porque cheia de sentido.
A primeira leitura, do livro do Eclesiastes explica um pouco mais o que queremos dizer. “Para tudo há um tempo” – devemos saber viver um dia de cada vez, sabendo que as coisas nem sempre avançam como queremos. “Todas as coisas são boas a seu tempo” – devemos saborear os bons momentos e ser capazes de encontrar sinais de esperança em todos eles. Como dizia o Alçada Baptista, «a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz. Acredito que é possível descobrir pedaços de luz no meio de tudo isso». A nossa vida a dois tem sido já uma experiência muito feliz de crescimento, dia a dia. Queremos continuar a gozar essa alegria de vivermos e crescermos juntos, de descobrirmos em conjunto a luz do nosso quotidiano, porque isso é muito bom.
Terceiro desejo: queremos que este compromisso não seja só nosso, mas também vosso. A comunidade onde crescemos, onde quotidianamente celebramos a nossa fé, é também aquela que se compromete connosco a acompanhar a nossa vida. Para nós a experiência da fé passa muito pela interpelação a sermos melhores, mais solidários, mais fraternos, mais humanos. Nós não somos donos da verdade e muitas vezes precisamos da ajuda de outros para descortinar os caminhos do Senhor da História. É isso que nos diz o texto da Gaudium et Spes: a Igreja é essencialmente uma comunidade que olha para a história das pessoas, para as alegrias e tristezas das pessoas de hoje e que as ampara na sua procura de uma vida mais cheia de significado. É isso que quer dizer uma Igreja “real e intimamente ligada ao género humano e à sua história”. Foi nesta Igreja que crescemos, nas nossas famílias, no Movimento Católico de Estudantes, na Comunidade João XXIII. É nessa Igreja que queremos continuar a crescer, convosco.
São estes os três desejos que deixamos. Terminamos com uma espécie de poema que resume isto duma maneira um pouco mais espalhafatosa e desarrumada. Então aqui vai:

Queremos festejar o nosso amor!
Queremos uma vida cheia de sentido
Queremos viver a sério a nossa solidariedade
Queremos um coração onde caiba toda a gente
Queremos uma liberdade mais pura e completa
Queremos ser nós mesmos até ao fim
Queremos encontrar sempre coisas novas
Queremos esperar e descobrir o inesperado
Queremos viver como se estivéssemos a dançar
Queremos acreditar profundamente nas pessoas
Queremos embriagar-nos do amor de Deus
Queremos encontrar esperança mesmo no desespero
Queremos descobrir uma presença mais pura em cada pessoa
Queremos viver o “afecto de cada dia nos dai hoje”
Queremos ensinar alguma coisa e aprender muito com os miúdos
Queremos a verdade como peixe quer água
Queremos a justiça sempre
Queremos ser escutados sem fazer barulho
Queremos encontrar motivos porque lutar
Queremos cultivar humanidade."
Cila e Zé Filipe, Junho 2009
* Há umas semanas o Jorge Wemans cravou-nos um texto para a Viragem sobre a nossa vivência em Igreja baseado na nossa preparação para o casamento. A nossa homilia foi escrita posteriormente com base nesse [outro] texto [que irá ser publicado na revista], introduzindo as referências às leituras e tornando a coisa um pouco mais pessoal.


"Matrimónio de Cila e Zé Filipe – Homilia
A fé da pessoa bíblica, iluminada por Deus, reinterpreta os acontecimentos, comum a outros povos, como sinais da aliança. Essa atitude mostra-nos uma característica da “mentalidade sacramental”. Quando Jesus “institui” os sacramentos, não inventa uma realidade semelhante a um meteorito, a uma instituição que “cai dos céus aos trambolhões“ e se impõe à pessoa humana. Trata-se, pelo contrário, de algo que tem as suas raízes na condição humana. É que Deus é, ao mesmo tempo, criador e salvador. Por isso, linguagens, gestos, encontros… dizem-nos claramente que a pessoa humana necessita do que é sensível para conhecer e exprimir-se, necessita de sinais autênticos sem formalismos nem ritualismos, sinais que sejam expressão do “coração” na sua relação com o Senhor Deus, consigo, com os outros, com a natureza e com os acontecimentos.
O que há de mais comum e, simultaneamente, de mais misterioso do que o encontro de dois seres que se amam e se reconhecem e que, no entanto, nunca acabaram de se descobrir? É o quotidiano em toda a sua poesia, riqueza e monotonia; é o quotidiano a tornar-se espelho do infinito.
Desde a primeira página da Bíblia, o encontro da mulher e do homem é visto como um dos espaços em que se desvenda o invisível. O próprio Deus quis inscrever o Seu rosto no casal humano que aparece no sexto dia como o cume da criação.
Cila e Zé Filipe, na vossa vida de casal tornais-vos imagem de Deus, tornais-vos sacramento nos vossos três desejos: projecto aberto, vivido na alegria e apoiado na e pela comunidade(s).
Entre todos os sacramentos, o matrimónio é um daqueles em que aparece claramente que não se pode separar a realidade humana e a realidade sacramental.
No matrimónio, mais do que noutro sacramento, fidelidade e perdão estão sempre ligados. Ambos têm a mesma fonte. Quando um esposo perdoa ao outro, é porque quer permanecer com ele, para que o amanhã seja diferente do ontem. Quando se perdoa vive-se mais alegre e é-se mais humano(a)... e mais divino(a)! Não se trata nem de esquecer o passado, nem de se tornar indiferente, nem de ser ingénuo(a)!...
Perdoar, como Deus perdoa, é amar o bastante para querer continuar a construir o futuro em conjunto; por isso, o casal humano é a realidade no seio da qual se pode compreender melhor toda a riqueza e toda a dificuldade do perdão: aí se revela também o rosto do Deus de Jesus.
Então, nesta envolvência sacramental ousamos cantar:

É grande a Tua piedade,
Se não fosse,
Qualquer homem deixaria de orar.
Mas apostamos no Teu Reino
Mesmo se sofremos. (bis)

Refrão
Seja o Teu Reino um corpo,
O mistério do Teu rosto
E as mãos
De gestos simples de amor
E de invenção.


Temos as mãos no vazio
Nada tocam,
Ainda que as saibamos feitas para lutar;
Mas apostamos no Teu Reino
Queremos lutar. (bis)

Ó Deus da nossa unidade,
Faz-nos fortes
Nossa força é trabalhar a aventura.
Mas apostamos no Teu Reino
Vamos trabalhar. (bis)"
António Samelo

Domingo, Março 29

«Se o grão de trigo, lançado à terra, morrer, dará muito fruto» – Domingo V da Quaresma

Foi o José Vieira que, hoje, nos ajudou na reflexão. Valeu a pena...

"COMEÇAR DE NOVO

O TPC de hoje que o professor José Manuel Pureza me encomendou tem um belo título: Começar de Novo. A primeira coisa, que imediatamente me ocorreu, foi cantar Ivan Lins…

Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido
Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido…

Depois comecei a pensar que sendo eu professor de Filosofia, se calhar, era suposto que eu falasse da condição humana, porque começar de novo é no fundo o tema do Mito de Sísifo. Este Sísifo é um herói da mitologia grega, que os deuses condenaram a repetir sempre a mesma tarefa de empurrar uma pedra do sopé de uma montanha até ao topo, só para vê-la rolar para baixo novamente. Albert Camus escreveu que este mito trágico pode ser um resumo do absurdo da condição humana: “ Se o mito é trágico é porque o homem seu protagonista tem consciência de que a esperança de atingir o propósito do seu trabalho é frustrada. Muitos trabalhadores do nosso tempo trabalham nas mesmas condições e o seu destino não é menos absurdo.”
Mas algumas perguntas se impõem: O ser humano tem ou não a possibilidade de modificar esta rotina absurda? Pode ou não lançar para longe o rochedo da miséria, da ignorância e da inconsciência? Pode ou não deixar de repetir a rotina dos dias, das semanas, dos meses e dos anos? Pode ou não alterar uma vida repetitiva e monótona para construir o próprio destino?
Responder negativamente a estas interrogações implicaria aceitar o fatalismo rotineiro que nunca nos permitirá modificar a nossa vida, o nosso presente e o nosso futuro.

Por isso, enquanto cristãos, homens e mulheres de fé, temos de recusar este fatalismo e temos antes de aceitar o desafio do Poeta (Miguel Torga):

Recomeça….
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Creio que este é de facto um belo desafio. Creio que é mesmo o desafio que se nos impõe com uma urgência urgente porque enquanto não alcançarmos as metas desejadas não podemos parar. Contentar-nos só com metade quando podemos ter tudo é preguiça. Nunca nos podemos dar por saciados por mais desilusões que possamos colher neste pomar de aventuras da nossa vida. Pedem-nos que sejamos fermento que leveda a massa. Que sejamos sal. Então sejamos sal e fermento. Não sei se vamos mudar o mundo. Mas sei que temos de mudar o nosso mundo. Sei que temos de começar de novo todos os dias porque vai valer a pena.

 Ivan Lins - Começar de Novo

Domingo, Março 22

"Se eu me não lembrar de ti, Jerusalém, fique presa a minha língua" - Domingo IV da Quaresma

Que belo mote para a nossa reflexão, ajudada pelo texto de D. Pedro Casaldáliga:

"Os sonhos de um grande profeta"
O cardeal Carlo Maria Martini, jesuíta, biblista, arcebispo que foi de Milão e colega meu de Parkinson, um eclesiástico de diálogo, de acolhimento, de renovação a fundo, tanto na Igreja como na Sociedade, em seu livro de confidências e confissões Colóquios nocturnos em Jerusalém, declara: «Antes eu tinha sonhos acerca da Igreja. Sonhava com uma Igreja que percorre o seu caminho na pobreza e na humildade, que não depende dos poderes deste mundo; na qual se extirpasse de raiz a desconfiança; que desse espaço às pessoas que pensem com mais amplidão; que desse ânimo, especialmente, àqueles que se sentem pequenos ou pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. Hoje não tenho mais esses sonhos». Esta afirmação categórica de Martini não é, não pode ser, uma declaração de fracasso, de decepção eclesial, de renúncia à utopia. Martini continua sonhando nada menos que com o Reino, que é a utopia das utopias, um sonho do próprio Deus. Ele e milhões de pessoas na Igreja sonham com a «outra Igreja possível», ao serviço do «outro Mundo possível». E o cardeal Martini é uma boa testemunha e um bom guia nesse caminho alternativo; tem-no demonstrado.
Tanto na Igreja (na Igreja de Jesus que são várias Igrejas) como na Sociedade (que são vários povos, várias culturas, vários processos históricos) hoje mais do que nunca devemos radicalizar na procura da justiça e da paz, da dignidade humana e da igualdade na alteridade, do verdadeiro progresso dentro da ecologia profunda. E, como diz Bobbio, é preciso instalar a liberdade no coração mesmo da igualdade»; hoje com uma visão e uma acção estritamente mundiais. É a outra globalização, a que reivindicam os nossos pensadores, nossos os militantes, os nossos mártires, os nossos famintos...
A grande crise económica actual é uma crise global de Humanidade que não se resolverá com nenhum tipo de capitalismo, porque não é possível um capitalismo humano; o capitalismo continua a ser homicida, ecocida, suicida. Não há modo de servir simultaneamente ao deus dos bancos e ao Deus da Vida, conjugar a prepotência e a usura com a convivência fraterna. A questão axial é: Trata-se de salvar o Sistema ou trata-se de salvar a Humanidade? As grandes crises, grandes oportunidades. No idioma chinês a palavra crise desdobra-se em dois sentidos: crise como perigo, crise como oportunidade.
Na campanha eleitoral dos EUA apelou-se repetidamente «ao sonho de Luther King», querendo actualizar esse sonho; e, por ocasião dos 50 anos da convocatória do Vaticano II, tem-se recordado, com saudade, o Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre. No dia 16 de Novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio, 40 Padres Conciliares celebraram a Eucaristia nas catacumbas romanas de Domitila, e firmaram o Pacto das Catacumbas. Dom Helder Câmara, cujo centenário de nascimento estamos a celebrar neste ano, era um dos principais animadores do grupo profético. O Pacto em seus 13 pontos insiste na pobreza evangélica da Igreja, sem títulos honoríficos, sem privilégios e sem ostentações mundanas; insiste na colegialidade e na co-responsabilidade da Igreja como Povo de Deus e na abertura ao mundo e no acolhimento fraterno.
Hoje, nós, na convulsa conjuntura actual, professamos a vigência de muitos sonhos, sociais, políticos, eclesiais, aos quais de nenhum modo podemos renunciar. Seguimos rechaçando o capitalismo neoliberal, o neo-imperialismo do dinheiro e das armas, uma economia de mercado e de consumismo que sepulta na pobreza e na fome uma grande maioria da Humanidade. E continuaremos a rechaçar toda discriminação por motivos de género, de cultura, de raça. Exigimos a transformação substancial dos organismos mundiais (a ONU, o FMI, o Banco Mundial, a OMC...). Comprometemo-nos a viver uma «ecologia profunda e integral», propiciando uma política agrária-agrícola alternativa à política depredadora do latifúndio, da monocultura, do agrotóxico. Participaremos nas transformações sociais, políticas e económicas, para uma democracia de «alta intensidade».
Como Igreja, queremos viver, à luz do Evangelho, a paixão obsessiva de Jesus, o Reino. Queremos ser Igreja da opção pelos pobres, comunidade ecuménica e macroecuménica também. O Deus em quem acreditamos, o Abbá de Jesus, não pode ser de jeito nenhum causa de fundamentalismos, de exclusões, de inclusões absorventes, de orgulho proselitista. Chega de fazermos do nosso Deus o único Deus verdadeiro. «Meu Deus, deixa-me ver a Deus?». Com todo respeito pela opinião do Papa Bento XVI, o diálogo inter-religioso não somente é possível, é necessário. Faremos da co-responsabilidade eclesial a expressão legítima de uma fé adulta. Exigiremos, corrigindo séculos de descriminação, a plena igualdade da mulher na vida e nos ministérios da Igreja. Estimularemos a liberdade e o serviço reconhecido dos nossos teólogos e teólogas. A Igreja será uma rede de comunidades orantes, servidoras, proféticas, testemunhas da Boa Nova: uma Boa Nova de vida, de liberdade, de comunhão feliz. Uma Boa Nova de misericórdia, de acolhimento, de perdão, de ternura, samaritana à beira de todos os caminhos da Humanidade. Continuaremos a fazer com que se viva na prática eclesial a advertência de Jesus: a «Não será assim entre vocês» (Mt 21,26). Seja a autoridade serviço. O Vaticano deixará de ser Estado e o Papa não será mais chefe de Estado. A Cúria terá de ser profundamente reformada e as Igrejas locais cultivarão a inculturação do Evangelho e a ministerialidade compartilhada. A Igreja comprometer-se-á sem medo, sem evasões, com as grandes causas da justiça e da paz, dos direitos humanos e da igualdade reconhecida de todos os povos. Será profecia de anúncio, de denúncia, de consolação. A política vivida por todos os cristãos e cristãs será a «expressão mais alta do amor fraterno» (Pio XI).
Não renunciamos a estes sonhos mesmo quando possam parecer quimera. «Ainda cantamos, ainda sonhamos». Nós atemo-nos à palavra de Jesus: «Fogo vim trazer à Terra; e que mais posso querer senão que arda» (Lc 12,49). Com humildade e coragem, no seguimento de Jesus, tentaremos viver estes sonhos no dia-a-dia das nossas vidas. Continuará a haver crises e a Humanidade, com as suas religiões e as suas Igrejas, seguirá sendo santa e pecadora. Mas não faltarão as campanhas universais de solidariedade, os Foros Sociais, as Vias Campesinas, os movimentos populares, as conquistas dos Sem Terra, os pactos ecológicos, os caminhos alternativos da Nossa América, as Comunidades Eclesiais de Base, os processos de reconciliação entre o Shalom e o Salam, as vitórias indígenas e afro e, em todo o caso, mais uma vez e sempre, «eu me atenho ao dito: a Esperança».
Cada um e cada uma a quem possa chegar esta circular fraterna, em comunhão de fé religiosa ou de paixão humana, receba um abraço do tamanho destes sonhos. Os velhos ainda têm visões, diz a Bíblia (Jl 3,1). Li nestes dias esta definição: «A velhice é uma espécie de pós-guerra»; não exactamente de claudicação. O Parkinson é apenas um percalço do caminho e seguimos Reino adentro.
Pedro Casaldáliga, Circular 2009. [com adaptações] (in: http://www.combonianosbne.org/node/526)

Domingo, Março 15

"Senhor, Vós tendes palavras de vida eterna" – Domingo III da Quaresma

Esta semana, ajudados pelo José Pureza, rezámos também...

Pelo Luís, pelo João, por nós
Estranha coisa esta de a morte nos trazer a vida de volta quando dela pouco quisemos saber no tempo em que com ela nos cruzámos. Foi assim, para muitos de nós, com o Luís. Foi quando ele morreu, subitamente, que procurámos resgatar o melhor da sua vida para entregar ao Miguel e à Ana como a única herança que valia a pena herdar. Na dor da Nani, a Comunidade aprendeu a ver a presença ausente da vida do Luís. Acho que nunca nos resignámos a esse lugar vazio. Nestes quatro anos, acompanhámos a Nani não só por amizade e por emoção mas também por estarmos com ela irmanad@s na perplexidade perante o mistério da perda. Hoje vimos aqui rezar para que esta pergunta que está connosco há quatro anos não deixe de nos desassossegar. E para que a possamos refazer, a olhar para a esperança, em conjunto com a Nani, o Miguel e a Ana, a tempo inteiro.
Foi também a morte do João Mesquita que trouxe de volta a sua vida, esta semana, para @s seus/suas muit@s amig@s. O João teve uma vida vertical e limpa, feita de cumplicidades muito densas. Foi uma vida muito difícil, por ser exigente de princípios e intransigente de recusas. Esta semana. @s seus/suas muit@s amig@s olharam para trás, lá para onde o João esteve. E sentiram tod@s esse mistério de uma vida que marca vidas a tomar corpo. O João não acreditava em Deus. Mas eu acho que ele se limitaria a cofiar o bigode e a acender mais um cigarro e, com calma e uma grande bonomia, escutaria a oração que eu hoje aqui faço para dar graças a Deus pelo seu testemunho de vida e para lhe pedir carinho e alento para a Clara e a Joaninha.

No final, o Zé Carlos Pina partilhou connosco um cântico retirado do disco Keur Moussa: Sacred Chant & African Rhythms from Senegal*, interpretado pelos Monks of Keur Moussa Abbey (Senegal). A música é o "Cântico da criação", inspirada em melodia popular da Mauritânia e texto adaptado de: Cântico dos três jovens (Daniel, 3:57-ss):

«Os três jovens, então, não tiveram senão uma só voz para louvar, glorificar e bendizer a Deus, na fornalha, com este cântico:

Todas as obras do Senhor,
louvai o Senhor
E vós, anjos do Senhor,
louvai o Senhor
E vós, seres humanos,
louvai o Senhor
E vós, filhos de Israel
louvai o Senhor
E vós, sacerdotes do Senhor,
louvai o Senhor
E vós, servos do Senhor,
louvai o Senhor
E vós, espíritos e almas dos justos,
louvai o Senhor
E vós, santos e humildes de coração,
louvai o Senhor
E vós, todas as criaturas do universo,
louvai o Senhor.»

Monks of Keur Moussa Abbey - Tya Mom Ndam Gu Rey

Domingo, Março 8

Confiança

É a palavra-chave de hoje.

Abraão não terá entendido o pedido do Senhor, mas confiou! E quando tudo parecia perder-se, ir esvair-se, o Senhor respondeu à confiança de Abraão com a Vida!
Aos discípulos parecia que era muito melhor permanecer no cimo do Monte e por isso queriam montar tendas; mas confiaram no Senhor Jesus e nada contaram até que o Senhor ressuscitasse dos mortos!

Confiança é a palavra que sustenta a Comunidade de Taizé!
E foi com um dos grupos de Coimbra ligado àquela Comunidade (o de São José) que hoje aprendemos a rezar: com a música, bela, que preenche o silêncio; e com os momentos de silêncio interpelador, profundo, pacificador...
Aqui fica um bocado do que eles partilharam connosco (todos os temas foram retirados de CD's editados pela Comunidade de Taizé).

O Cântico de Entrada foi, originalmente, escrito para o Encontro Internacional de Lisboa, em português.
Taizé - Cantarei ao Senhor


Momento do Perdão.
Taizé - Kyrie eleison 19


No final da Celebração da Palavra, cantámos:
Taizé - Jesus le Christ


Já à Comunhão:
Taizé - Behüte Mich, Gott (Tu és o meu Deus)


No final, ainda rezámos:
Taizé - Bendizei o Senhor (Bénissez le Seigneur)

Quarta-feira, Fevereiro 25

"Igreja deve dar à mulher protagonismo que até agora lhe negou"

No Público de dia 23 de Fevereiro, em entrevista de António Marujo, o biblista, teólogo e antropólogo Carlos Gil Arbiol fala sobre as primeiras comunidades cristãs e São Paulo. Julgo que nos pode ajudar a reflectir sobre algumas das questões que, nos últimos domingos, nos têm interpelado. Podemos lê-la aqui.