sexta-feira, novembro 7

"...na eternidade do Deus vivo e infinitamente bom"

A nossa Celebração começou a ser preparada ainda na véspera, no Dia de Todos os Santos, com o José Pureza a chamar-nos a atenção par ao artigo do Anselmo Borges no Diário de Notícias.

No Domingo, juntámo-nos para Celebrar a Vida!
Iniciámos a nossa Eucaristia com um belíssimo momento de evocação dos nossos mortos:

Charlie Haden with Josh Haden & Jerry Douglas - Spiritual


SPIRITUAL
Jesus, I don't want to die alone
Jesus, oh Jesus, I don't want to die alone
My love wasn't true
Now all I have is you
Jesus, oh Jesus, I don't want to die alone.

Jesus, if you hear my last breath
Don't leave me here
Left to die a lonely death
I know I have sinned
But Lord I'm suffering
Jesus, oh Jesus, if you hear
My last breath.

All my troubles
All my pain
Will leave me
Once again


“Depois da morte, para os mortos, já não há aniversário, porque, com a morte, sai-se do tempo e entra-se na eternidade. Na eternidade do nada ou na eternidade de Deus. Espero que na eternidade do Deus vivo e infinitamente bom.”
Anselmo Borges, Diário de Notícias 1.11.2008

Para o momento do perdão, rezámos com um poema de Angelo Roncalli (Papa João XXIII):

HOJE, APENAS HOJE

Hoje, apenas hoje, procurarei viver pensando
apenas neste dia, sem querer resolver de uma
só vez todos os problemas da minha vida.

Hoje, apenas hoje, terei o máximo cuidado
na minha convivência: serei cordial, não criticarei
nem pretenderei melhorar ou corrigir
ninguém à força, senão a mim mesmo.

Hoje, apenas hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias,
sem esperar que sejam todas as
circunstâncias a adaptar-se aos meus desejos.


Foi, assim, um início intenso, rico, pleno de memória: não só pelos nossos familiares e amigos mas, também, pelo 50º aniversário da eleição do Cardeal Angelo Roncalli para Papa: o Bom Papa João XXIII (28 de Outubro).

Por isso mesmo, na Liturgia da Palavra, relemos dois trechos de uma acutilante actualidade:

“O maior problema da época moderna talvez seja o das relações entre as comunidades políticas economicamente desenvolvidas e as que se encontram em fase de desenvolvimento económico; as primeiras, por conseguinte, com alto nível de vida; as outras, em condições de escassez ou de miséria. A solidariedade que une todos os seres humanos e os torna membros de uma só família, impõe aos países que dispõem com abundância de meios de subsistência o dever de não permanecerem indiferentes diante das comunidades políticas cujos membros se debatem com as dificuldades da indigência, da miséria e da fome e não gozam dos direitos elementares da pessoa humana. Tanto mais que, dada a interdependência cada vez maior entre os povos, não é possível que entre eles reine uma paz durável e fecunda, se o desnível das condições económicas for excessivo.” (Mater et Magistra, 1961)

“A todos os homens de boa vontade incumbe, pois, a imensa tarefa de restabelecer as relações de convivência, baseando-as na verdade, na justiça, no amor e na liberdade. (…) Estes homens, bem poucos certamente para tão grande tarefa, merecedores do aplauso universal, é justo que de nós recebam o elogio público, bem como uma urgente exortação a que preseverem em tão salutar empreendimento. Mas conforta-nos igualmente a esperança de que muitos outros, sobretudo de entre os cristãos, levados pela consciência do dever e pela exigência da cvaridade, virão juntar-se-lhes. Porque todos aqueles que acreditam em Cristo devem ser nesta sociedade humana como que um facho de luz, um fogo de amor, um fermento que levede toda a massa, e tanto melhor o serão quanto mais unidos estiverem com Deus.” (Pacem in Terris, 1963)

No momento da partilha, escutámos alguns testemunhos, sobre João XXIII, que nos foram trazidos pelo José Pureza; são eles do Zé Dias, da Alfreda Fonseca, do Miguel Marujo e do Anselmo Borges. Aqui ficam:

JOÃO XXIII – O PAPA DA BONDADE, DA CONCÓRDIA E DA ATENÇÃO AO ESPÍRITO SANTO
Eleito já em idade avançada e doente, mais como Papa de transição, propôs-se, para lá de duas encíclicas memoráveis (a Mater et Magistra mas sobretudo a Pacem in Terris), três grandes objectivos: reunir um Sínodo diocesano (ele era também bispo de Roma}, publicar um novo Código de Direito Canónico (o último datava de 1918) e convocar um Concílio.
Esta convocação "quase deixou em pânico" a milenar estrutura curial pelas mudanças profundas que poderia trazer. Mas também surpreendeu todo o mundo, já que se tratava de uma tarefa demasiado pesada para um "velho" de 80 anos e tão ingente que, tanto Pio XI como Pio XII que chegaram a pensar nesta ideia, não se tiveram a coragem de pô-la em
prática.
Por isso, o Concílio tem muito do modo de ser deste Papa bondoso:
- do seu estilo de vida: simplicidade, optimismo, aposta constante na reconciliação, recusa em fazer condenações e, como principal critério pastoral, a preocupação primeira pelas pessoas a quem se dirigia, o que inclusive o levou, com aquela idade, a aprender línguas: "Não é que eu pretenda fazer discursos em inglês, mas parece-me que não serei Pai se me aproximar de tantas pessoas que só conhecem o inglês e não lhes dirigir uma palavra sequer que elas entendam", escreveu ele ao seu confessor; daí também a sua grande preocupação para que a língua vernácula fosse introduzida na liturgia;
- da sua leitura dos sinais dos tempos: a Igreja estava desfasada de um mundo que avançava a passos Largos nem sempre pelos melhores caminhos; era preciso fazer o aggiornamento, "pôr em dia" a Igreja, não na sua doutrina, mas na sua vida e no modo de exprimir esse "depósito da fé" que era chamada a preservar ao serviço de um mundo melhor;
- do seu amor e estudo da história que lhe forneceu lições e elementos fundamentais: a investigação sobre a Reforma deu-lhe a conhecer melhor os irmãos separados; da história em geral aprendeu ao que conduziram as sucessivas condenações que a Igreja foi espalhando ao longo da história; por isso, o concílio não seria condenatório;
- das passagens, como núncio apostólico:
• por Sofia, Atenas e Constantinopla, que lhe permitiu conhecer o que pensava a Igreja ortodoxa da Igreja católica e experimentar ao vivo mais esta dolorosa divisão dos cristãos: dai a sua quase obsessão pelo Ut sint unum (Que todos
sejam um), a sua paixão pelo ecumenismo; esta verificação foi possivelmente uma das causas mais decisivas para a convocação do Concílio;
• por Paris, num mundo totalmente diferente, o mundo da cultura do século XX, profundamente marcado pela indiferença religiosa, que lhe fez sentir a urgência de uma profunda renovação do cristianismo; ali intuiu a necessidade daquilo que mais tarde viria a ser a Gaudium et Spes.
Zé Dias 28.0ut.2008

Nos 50 anos da eleição do Papa João XXIII, recordo especialmente a sua capacidade de ler os sinais dos tempos e neles interpretar os apelos da humanidade em busca de Deus, bem como a resposta que a Fé no Deus de Amor, de Jesus Cristo, pode ser proposta a cada pessoa.
Provavelmente muitos de nós hoje não seriamos crentes se não fosse a coragem deste Papa que convocou o concílio Vaticano II.
A Igreja tinha acumulado tanta “ganga” histórica que se tinha tornado quase “opaca” à mensagem evangélica. As formas ritualistas de piedade cristã, eurocêntricas e datadas com prazo de validade expirado, tornavam-se um obstáculo a que o pensamento e a busca livre dos fiéis fosse admitido. O virar costas à Modernidade, o conservadorismo implícito e explícito tornando anátema tudo aquilo que fosse levemente distinto do centralismo (nada) democrático romano, tinha levado a Igreja e o seu precioso depósito da Fé para um beco sem saída.
A capacidade de João XXIII de saber quando e como abrir a janela e deixar entrar a ventania que foi o sopro forte do Espírito Santo e arejar a instituição reconduzindo-a à sua função inicial de mostrar o rosto de Deus através de Jesus Cristo incarnado na nossa História muito humana e diversa, é a prova que o Reino de Deus está entre nós e que é possível vivê-lo a anunciá-lo.
Era inesperado que este Papa, velho, doente e com uma carreira burocrático - eclesiástica na Santa Sé, pudesse ser em 1º lugar, eleito Papa, e depois, o protagonista da maior mudança a que a Catolicidade foi chamada no sec XX …e no entanto foi através dele que o Espírito de Deus se manifestou a todos nós. Estamos-lhe gratos por isso. Pelo menos eu estou!
Alfreda Fonseca


TÃO PERTO E TÃO LONGE
Não é fácil falar de João XXIII na minha vida. Do Bom Papa, como o chamavam e chamam, não retenho mais do que uma imagem impressionista, em que o real se mistura muitas vezes com o imaginário - aquelas em fotos rugosas de jornais amarelecidos, estas em filmes que nos mostram outra cara e esquecem a complexidade da vida pela simplicidade hagiográfica de contar uma história. O que é real foi a descoberta em fragmentos soltos, frases dispersas, excertos de textos maiores de um pensamento que nos inquietava, do sobressalto que era pensar a Igreja no mundo, sem conjunção nem adversativa porque a Igreja está no mundo, é do mundo, vive aí.

Para mim, João XXIII é pois um Papa de uma história tão longínqua como próxima, feita de atenção às pequenas coisas do mundo. Longe no tempo, próxima na inquietação de querer mudar, palavra chave para este tempo de tanta acomodação e resignação. Nos meus tempos de militante do MCE era também nas suas palavras que muitas vezes tropeçávamos à procura de notas ou apontamentos que nos dessem pistas para o nosso trabalho, mais ainda para ideias que pareciam ir contra a corrente.

Mas contra a corrente continua a ser esses monumentos de palavras que nos obrigam a parar que são Pacem in Terris, que permanece dramaticamente actual, apesar de ter sido escrita por causa da guerra fria, e Mater et Magistra, que devia ser pão para a boca para tantos nesta nossa Igreja. Afinal, recorda-nos o Papa, a abrir o documento, que "a Santa Igreja, apesar de ter, como principal missão, a de santificar as almas e de as fazer participar dos bens da ordem sobrenatural, não deixa de preocupar-se ao mesmo tempo com as exigências da vida quotidiana dos homens, não só naquilo que diz respeito ao sustento e às condições de vida, mas também no que se refere à prosperidade e à civilização em seus múltiplos aspectos, dentro do condicionamento de várias épocas."

Há 50 anos e tão actual. Devo corrigir-me: a história de Angelo Roncalli só me é próxima. De longínqua não tem nada.
Miguel Marujo


1. Impressionou-me a sua simplicidade e imenso humor. Lembro, por exemplo, aquela vez em que, já ele Papa, um aluno de um Colégio Universitário em Roma lhe perguntou como era sentir-se o primeiro no Vaticano. E ele: "Está enganado; eu estive a contá-los e devo ser o sexto ou o sétimo..."
2. Era um cristão, com bondade boa. Assim, também lembro aquela vez em que ele chegou tarde ao Varicano e havia muita gente à espera dele. Dirigiu-lhes umas breves palavras, terminando: "já é tarde; olhai para a lua que esta noite está tão bela; ide para casa e não vos esqueçais de dar um beijo meu aos filhos pequenos."
3. Porque era cristão e já se tinha apercebido de que na Igreja o ar era irrespirável, convocou um Concílio Ecuménico, na tentativa de converter a Igreja ao Evangelho e tornar os católicos cristãos, na fraternidade universal.
4. Se ele fosse vivo e ouvisse falar da vossa Comunidade João XXIII, estou convencido de que ficaria contente e dar-vos-is ânimo para continuardes.
Um abraço amigo
Anselmo

Já no Credo, rezámos esta bela oração de Martin Luther King, tendo (como música de fundo), uma lindíssima interpretação do We Shall Overcome:
Charlie Haden & Hank Jones - We Shall Overcome


"Hoje,
na noite do mundo e na esperança da Boa Nova,
eu afirmo com audácia minha fé no futuro da humanidade.
Recuso crer que as circunstâncias actuais
tornem os homens incapazes de fazer uma terra melhor.
Recuso crer que o ser humano
não seja mais do que um boneco de palha agitado pela corrente da vida,
sem ter a possibilidade de influir minimamente no curso dos acontecimentos.
Recuso-me a partilhar a opinião dos que pretendem
que o homem está de tal maneira prisioneiro da noite sem estrelas,
da guerra e do racismo,
que a aurora luminosa da paz e da fraternidade não possa nunca tornar-se realidade.
Recuso fazer minha a predição cínica
daqueles que dizem que os povos mergulharão, um após outro,
no turbilhão do militarismo, até o inferno da destruição termonuclear.
Eu creio que a verdade e o amor incondicionais
terão efectivamente a última palavra.
A vida, ainda que provisoriamente derrotada,
é sempre mais forte que a morte.
Eu creio firmemente que,
mesmo no meio das bombas que explodem e dos canhões que troam,
permanece a esperança de um amanhã radioso.
Ouso crer que, um dia, todos os habitantes da terra
poderão receber três refeições por dia para a vida de seu corpo,
a educação e a cultura para a saúde de seu espírito,
a igualdade e a liberdade para a vida de seus corações.
Creio, igualmente, que um dia toda a humanidade
reconhecerá em Deus a fonte do seu amor.
Creio que a bondade salvadora e pacífica um dia será lei.
O lobo e o cordeiro poderão repousar juntos,
todo homem poderá sentar-se sob a sua figueira, na sua vinha
e ninguém terá motivo para ter medo.
Creio firmemente que triunfaremos."



Para finalizar, no momento de Acção de Graças, saboreámos estas palavras de Manuel Alegre (A Praça da Canção, Coimbra, Centelha, 1975 [3ª ediçao]):

Para João XXIII

Porque não sei de Deus não trago preces.
Sou apenas um homem de boa vontade.
Creio nos homens que acreditam como tu nos homens
creio no teu sorriso fraternal
e no teu jeito de dizer
quase como quem semeia
as palavras que são
trigo da vida.
Creio na paz e na justiça
creio na liberdade
e creio nesse coração terreno e alto
com raízes no céu e em Sotto il Monte
De Deus não sei. Mas quase creio
que Deus poisou nas mãos cheias de terra
dum jovem camponês de Sotto il Monte.

Por isso mando à Praça de S. Pedro
não uma prece
mas a minha canção fraterna e livre
esta canção
que vai pedir-te a humana benção
João XXIII avô do século.

1 comentário:

Zé Filipe disse...

Vejo que as celebrações continuam com uma qualidade estética excepcional! No aniversário da eleição do "patrono", deixo também os parabéns à Comunidade. Um abraço com saudades,