domingo, fevereiro 25

A tentação de Jesus

Que melhor maneira de recomeçar a edição do nosso blog?!...
Deixamos aqui os textos que o Samelo nos foi preparando para esta nossa caminhada quaresmal...
Começamos por uma introdução à caminhada que iremos fazer e pelo texto para o 1º Domingo.

A tentação de Jesus
Desde a antiguidade cristã, o relato da tentação, comum aos Sinópticos, constitui uma dificuldade: parecia irreconciliável com a dignidade do Filho de Deus. A solução mais radical era negar que Cristo tivesse sido realmente tentado; tratar-se-ia de um relato exemplar para nos indicar como comportarmo-nos perante as tentações.
Contudo, as narrações evangélicas não parecem deixar lugar a dúvidas. Então, o problema será o de ver qual o real significado das narrações evangélicas e como devemos interpretá-las, tendo em conta a perspectiva de cada evangelista.
O brevíssimo relato de Marcos (1, 12-13), estreitamente ligado ao relato do baptismo, está inserido no anúncio por parte do Baptista da vinda de um mais poderoso que ele e o resumo da pregação de Jesus segundo o qual se cumpriu o prazo e devemos convertermo-nos ao Evangelho (Mc 1, 14-15). Neste contexto, o relato da tentação adquire o significado de apresentar esse “poderoso” que derrota Satanás despojando-o de todo o poder (cf Mc 3, 27) e tem capacidade para isso, porque nele reside o Espírito (Baptismo), sinal dos tempos messiânicos. Este Espírito é o que conduz Jesus ao deserto, lugar tradicional da tentação (Dt 8, 2s); os quarenta dias que ali passa Jesus recordam os quarenta anos que Israel passou no deserto, anos de tentações e de traições. Porém, precisamente com a vinda de Jesus, este lugar fica transformado. Ele venceu a luta com o demónio e inaugura assim os últimos tempos, quando, como sucede precisamente a Jesus, os animais selvagens deixarem de ser inimigos do homem (cf Is 11, 6s) e será possível a familiaridade com Deus, representado pela proximidade dos anjos. É praticamente um retorno aos tempos paradisíacos: Satanás não pode arrancar Jesus da proximidade de Deus e assim se abre para o homem a possibilidade de uma amizade renovada com Deus.
Mateus (4, 1-11) pormenoriza o conteúdo das tentações: nelas torna-se a viver toda a história de Israel, mas agora em plena fidelidade a Deus e ao seu modo de intervir na história. Satanás interpela Jesus com o título de “Filho de Deus”, nome recebido no baptismo. Porém, esta qualificação não significa honras, riqueza, poder, mas exige a plena confiança na palavra de Deus e na sua vontade que, concretamente - como sugeria já o episódio do baptismo - significa empreender o caminho do servo que toma sobre si os pecados do povo. Fica excluída, portanto, o caminho da abundância, da segurança baseada nos bens materiais (4, 3-4): não é esse caminho, que Jesus percorrerá na sua vida, mas antes a fé na palavra e a disponibilidade para as suas exigências.
Fica também fechado o caminho de um messianismo construído sobre milagres estrepitosos (4, 5-7); a confiança em Deus não se baseia em actos de prestígios, mas consiste ”numa esperança contra toda a esperança”. Por isso, a cruz não será o sinal do fracasso (cf Mt 27, 42-43), mas o da entrega suprema ao Pai: apesar das aparências é este o caminho que leva à vida.
E também é impraticável o caminho do messianismo político (4, 8-10): o caminho que leva à vitória é o do serviço e não o do poder.
Por ambição de domínio, Israel entregou-se, por vezes, à adoração de deuses estrangeiros, à idolatria. Porém, só Deus é o verdadeiro “dominador” deste mundo e nada mais há a fazer do que seguir na fé o caminho por Ele indicado.
Lucas recolhe duas ideias características que vale a pena sublinhar: uma depende da posição que ocupa, no seu evangelho, o relato das tentações; a outra está ligada à conclusão deste mesmo relato (Lc 4, 1-13).
O Jesus que Lucas nos apresenta é aquele cuja ligação com Adão fora insinuada e o Espírito que o move é aquele que baixou sobre ele quando estava a ser baptizado. O baptismo, a genealogia e a tentação formam na perspectiva lucana uma unidade muito estreita (3, 21 ─ 4, 13). Não se trata só do novo Israel, mas da renovação da humanidade. Adão enganou-se no jardim; porém, Jesus é o novo Adão que está na origem dessa humanidade nova que nasce da vitória sobre Satanás e sobre o pecado. O baptismo é o sinal dessa vitória e desse novo nascimento: já referimos que a oração de Cristo durante a efusão do Espírito era um apelo directo à oração da comunidade cristã para que o Espírito baixasse sobre o baptizado.
A segunda observação consiste no facto de Lucas organizar as coisas de tal modo que as tentações têm a sua conclusão em Jerusalém (4, 9). (Jerusalém: seu significado). Sabemos que no seu evangelho todo o “caminho” de Jesus está orientado para a cidade santa, onde terá lugar a sua “ascensão” (9, 51); aliás, afirma-se explicitamente que o diabo se retirou, mas apenas por algum tempo (4, 13). Esta referência diz respeito, sem dúvida, à paixão-morte de Jesus como momento supremo da sua luta com Satanás: particularmente, no Getsémani, Jesus incita com insistência os apóstolos a rezar “para não caírem em tentação” (22, 40.46). A Páscoa será a vitória definitiva de Cristo, a sua fidelidade à palavra de Deus que aparentemente leva à derrota, mas que, na realidade, é a superação última de todas as sugestões diabólicas e o cumprimento daquela missão de salvação que o Pai lhe havia confiado.
Em conclusão, as tentações mostram uma vez mais a solidariedade de Cristo com a humanidade: ele fica a fazer verdadeiramente parte da nossa história com todas as suas ilusões, as suas dificuldades, com toda a sua carga de pecado. Não é que nele haja qualquer conivência com o pecado, mas precisamente a sua “inocência” e, portanto, a sua plena disponibilidade à vontade do Pai levá-lo-á à cruz, isto é, à situação do máximo afastamento de Deus. O caminho do servo é o caminho de sofrimento, de morte e a morte é a interrogação radical posta à vida e à fé no Deus da vida. É a tentação radical, aquela que também Cristo padeceu exactamente pelo seu “ser sem pecado”, isto é, pela sua abertura completa aos desígnios da Salvação do Pai. Foi precisamente o seu “ser Filho”, isto é, manifestação do Pai, o que o levou a este choque com Satanás (“se és Filho de Deus...”), a experimentar pessoalmente a tentação como o povo eleito (Mt), como toda a pessoa humana (Lc).
Contudo, é esta confiança incondicional em Deus o caminho para a vitória, essa confiança que Satanás tenta eliminar e que Cristo afirma com decisão. Por ele e por nós.

A transfiguração de Jesus
Primeiro que tudo deve destacar-se que o contexto no qual os Sinópticos falam da transfiguração é praticamente idêntico: um contexto dominado pela temática da paixão e da cruz (cf Mc 9, 2-13 par). O filho do homem que virá sobre as nuvens do céu (Dan 7), recordado na nuvem que aparece no monte da transfiguração, é o filho do homem que terá de padecer e morrer (Mc 8, 31). E isto supõe um escândalo para os discípulos; mas a transfiguração não faz mais que confirmar este escândalo: da glória que aqui se manifesta não se pode falar a não ser no contexto do destino de Cristo e do cristão.
A voz do céu recorda o baptismo. Também ali a manifestação de Jesus estava estritamente ligada à sua missão de salvar a humanidade do pecado. Remete-se aos mesmos textos veterotestamentários: Sl 2, 7 (que fala do messias-rei) e Is 42, 1 (o “servo de Javé”). Jesus resume em si mesmo estas diversas formas de messianismo; é o messias esperado, mas a sua realeza não pode separar-se da sua apresentação como “rejeitado por Deus e abandonado”. Nele se cumpre toda a revelação veterotestamentária: a “lei” e os “profetas” (Moisés e Elias) falam dele. As exigências mais profundas da lei, isto é, a plena fidelidade à Aliança com Deus e aos que esta aliança leva consigo encontram o seu cumprimento na entrega da sua vida. E o seu destino não desdiz o daqueles profetas que, na medida em que anunciaram fielmente a palavra de Deus, encontraram perseguições por parte dos homens. Nisto precisamente radica a sua glória, a sua “transfiguração”.
É isto o que os discípulos têm que entender: a revelação da glória de Cristo realiza-se na sua humilhação. Se se compara Mc 9, 2 com Mc 14, 33 vê-se que há uma estreita relação entre o ser testemunhas da transfiguração e o ser testemunhas da debilidade no Horto das Oliveiras: sobre o Monte, esconde-se-lhes contemplar uma antecipação da glória do Ressuscitado para que saibam compreender que a paixão e a cruz não são algo incompreensível, que se deva rejeitar, mas que entram no plano amoroso de Deus. Por isso mesmo, Lucas indica que com Moisés e Elias Jesus falava do “seu êxodo que ia completar em Jerusalém” (Lc 9, 31). Para quem tem olhos para ver, o Crucificado não é abandonado por Deus, mas a manifestação suprema do seu amor. Tal como na parábola dos vinhateiros homicidas (Mc 12, 1-12), Jesus não vai ao encontro da paixão e da morte apesar de ser Filho de Deus, mas precisamente por ser Filho: será no completo abandono à vontade do Pai que alcançará aquela glória de que a transfiguração é apenas uma antecipação.

António Manuel Neto Samelo


1º Domingo da Quaresma - Ano C
25-02-2007

A tentação de Jesus

Preâmbulos:

1º: Lucas não jornalista das tentações de Jesus… mas membro de comunidade(s) cristã(s) para quem escreve… uma catequese sobre a(s) tentação(ões) de Jesus.

2º: A tentação não é pecado… no Pai-nosso: “não nos deixes cair em tentação…”

3º: Jesus cresceu, teve dúvidas, … foi realmente tentado…e não apenas três vezes…: toda a sua existência foi marcada pela tentação: abandonado do Pai…

4º: Segundo a perspectiva cristã, a pessoa humana é um ser em relação
* com a natureza,
* com os outros,
* com Deus e
* consigo mesma.

5º: Esse ser em relação pode ir sendo realizado segundo dois “jeitos”:
ou “ao jeito de Jesus”, isto é, não cair em tentação
ou “ao jeito do diabo”, isto é, cair em tentação.

Catequese de Lucas sobre as tentações de Jesus:

Diabo atraente….

1ª Tentação (“pedra…”):
relação com a natureza e os seus bens:
* “ao jeito do diabo”, isto é, cair em tentação: agir como patrão e dono… egoisticamente;
* “ao jeito de Jesus”, isto é, não cair em tentação: agir como administrador (cf 1ª leitura: “as primícias…”: destino universal dos bens…).

2ª Tentação (“reinos…”):
relação com os outros:
* “ao jeito do diabo”, isto é, cair em tentação: agir segundo o “quadro” que fazemos do(a) outro(a) à nossa imagem e semelhança… domínio… “Mas, direis, que divisão vês entre nós? Aqui, nenhuma, mas quando termina a nossa assembleia, um critica o outro; outro injuria publicamente o irmão; outro enche-se de inveja, de avareza ou de cobiça; outro entrega-se à violência; outro à mentira e à fraude. Se nossas “almas” pudessem ser postas a nu, veríeis então a exactidão de tudo isso… Desconfiando uns dos outros, falamos ao ouvido do vizinho e se vemos aproximar-se um terceiro, calamo-nos e mudamos de assunto… Respeitai, respeitai esta mesa da qual todos nós comungamos; respeitai Cristo entregue por nós.” [João Crisóstomo (± 354 - 407)];
* “ao jeito de Jesus”, isto é, não cair em tentação: agir servindo o(a) outro(a) (lava-pés - cf Jo 13, 1-17), vivendo “o sermão da montanha”) (cf Mt 5─7 e paralelo em Lc 6, 20-49):

3ª Tentação (“templo…”):
relação com Deus:
* “ao jeito do diabo”, isto é, cair em tentação: duvidar da fidelidade de Deus=Amor (cf testemunho da atitude do Zé Dias na doença:
(…) Perante esta inesperada notícia (um quisto de gordura…maligno) ocorreram-me três palavras bíblicas.
A primeira é de Job: “Deus mo deu, Deus mo tirou. Que o Senhor seja louvado!” (2, 21). Ao repetir esta palavra, fiquei feliz por não ter dito “Porquê a mim? Que mal fiz a Deus?”, como se eu merecesse um tratamento especial da parte de Deus ou como se estas coisas não acontecessem todos os dias a tanta gente. E que esta era uma das minhas dúvidas: “será que a minha fé resiste a uma contrariedade grave? Como ‘tratarei’ Deus nessa situação? (…)
” in: Correio de Coimbra de 2006-03-09, página 7);
* “ao jeito de Jesus”, isto é, não cair em tentação: “Pai, afasta de Mim este cálice!... mas faça-se a Tua vontade e não a minha” (Mt 26, 42b - no Pai-nosso: “seja feita a Tua vontade assim na terra como no céu”); “desce da cruz e acreditaremos!... e não desceu e assim nos revelou um Deus “sub contrario”, às avessas… (cf Cálice de Chico BUARQUE e o testemunho da atitude do Zé Dias na doença:
(…) A terceira palavra vem do Jardim das Oliveiras: “Meu Pai, se é possível afasta de mim este cálice. Contudo, não se faça como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26,39). Estas palavras de Jesus colocaram-me sempre problemas existenciais profundos. O que devia eu rezar a Deus: “Cura-me” ou “Faça-se a tua vontade”? No primeiro momento, a tentação foi pedir a cura. Mas resisti e acabei por pedir a Deus que me desse forças para aceitar a sua vontade. E que a vontade de Deus podia não ser a minha cura. E pedir a cura pode gerar um “conflito de interesses”. (…) in: Correio de Coimbra de 2006-03-09, página 7).
Por isso não pedi a Deus que me curasse, mas que me desse forças para aceitar sem revolta a sua vontade. A oração não tem que ser só petição, nem uma tentativa de alterar a vontade de Deus, menos ainda uma espécie de cunha que pode raiar o suborno: “Não tentes corrompê-lo com presentes, porque Ele não os receberá. Não te apoies num sacrifício injusto. Porque o Senhor é justo e não faz distinção de pessoas” (Eclo 35, 11-12).

E por fim a relação connosco próprios(as):
Quaresma é a preparação da nossa festa mais importante - a Páscoa (morte e ressurreição de Jesus) (cf 2ª leitura); o jejum que nos é pedido “consistirá acima de tudo no repouso imposto a si mesmo, na disciplina da tranquilidade e do silêncio, onde a pessoa encontra a possibilidade de se concentrar para a oração e a contemplação, mesmo no meio de todos os ruídos do mundo, entre a multidão, nos cruzamentos da “cidade”; consistirá principalmente na capacidade de compreender a presença dos outros, dos amigos, em cada encontro; o jejum, ao contrário do masoquismo imposto, será a renúncia alegre do supérfluo, a sua partilha com os pobres.” (Paulo EVDOKIMOW, teólogo cristão ortodoxo).
António Samelo

domingo, maio 28

Domingo da Ascenção | Dia da Espiga

Mais uma vez fizémos a nossa Caminhada.
Quisémos rumar, de novo, ao Penedo de Góis. Esse que há dois anos nos impediu de o percorrer, tendo-se banhado de chuva e iluminado a nossa tarde com trovoada... obrigou-nos a ficar na Escola/Associação de Povorais, onde celebrámos com pessoas da aldeia.
Desta vez, voltámos a juntar os amigos em Góis e repetimos o almoço partilhado à porta da Escola/Associação de Povorais... no final, avançámos para a conquista do Penedo.
Começámos, então a subida



A actualização segue dentro de momentos...

... continuação (finalmente)


Subimos, subimos...
De quando em quando parávamos para contemplar, para rezar, reflectir, ...
Fomos, também, repetindo um refrão que se tornou o mote da subida:

A vida é como uma estrada
que vai sendo traçada
sem nunca arrepiar caminho!
E quem pensa estar parado
vai no sentido errado

a caminhar sozinho.

José Mário Branco, «Do que um homem é capaz», Resistir é Vencer, 2004




A proximidade da trovoada afastou-nos, mais uma vez, do cume do Penedo!
A terceira será de vez?!

domingo, maio 7

Dia da Mãe

Celebrámos a Mãe! Todas as Mães! A de cada um!
Quisémos cantar, rezar, escutar o silêncio, saborear gestos e palavras, poemas e imagens, oferecidos por todos e cada um à sua Mãe! E à Nossa Mãe!
Começámos por fazer a Festa do Acolhimento!... cantada por Pavarotti!


Mamma
(C. A. Bixio, B. Cherubini)
Mamma, son tanto felice
perchè ritorno da te.
La mia canzone ti dice
che'è il più bel giorno per me!
Mamma, son tanto telice...
Viver lontano, perchè?

Mamma...
Solo per te la mia canzone vola!
Mamma...
Sarai con me, tu non sarai piu sola!
Quanto ti voglio bene!
Queste parole d'amore,
che ti sospira il mio cuore
forse non s'usano più...
Mamma...
Ma la canzone mia più bella sei tu!
Sei, tu, la vita,
E per la vita non ti lascio mai più!

Sento la mano tua stanca
cerca i miei riccioli d'or.
Sento... e la voce ti manca
la ninna nanna d'allor.
Oggi la testa tua bianca
io voglio stringere al cuor!

Mamma...
Solo per te la mia canzone vola!
Mamma...
Sarai con me, tu non sarai piu sola!
Quanto ti voglio bene!
Queste parole d'amore,
che ti sospira il mio cuore
forse non s'usano più...
Mamma...
Ma la canzone mia più bella sei tu!
Sei, tu, la vita,
E per la vita non ti lascio mai più!

Mamma... mei più!



Como Kyrie, rezámos

POEMA À MÃE
eugénio de andrade
[Póvoa de Atalaia, 1923-2005]

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha – queres ouvir-me? –
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda ouço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio do laranjal...


Mas – tu sabes – a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.



Na partilha, quisémos mostrar bocadinhos de história de algumas das mães da Comunidade ou de outras comunidades que encheram as nossas vidas...

De seguida rezámos o Credo que foi publicado na Viragem


Creio em um só Deus
que nos criou a todas e a todos
e cuja divindade impregna toda a vida
de sagrado.

Creio nas múltiplas revelações
deste Deus
que vive em cada coração humano,
que se exprime em todas as culturas
e se encontra em todas as sabedorias do mundo.

Creio
que Jesus Cristo,
o filho único de Deus,
é o rosto de Deus
na Terra
em quem podemos ver melhor
a justiça divina
a misericórdia divina
a compaixão divina
à qual somos chamados.

Creio em Cristo
que é um com o Criador,
que nos mostra a presença de Deus
em tudo o que existe
e desperta em nós o sagrado.

Creio em Jesus, o Cristo
que nos conduz à plenitude
da estatura humana,
à qual fomos chamados
antes do começo da História
e por que todas as outras coisas foram feitas.

Por Cristo
tornamo-nos seres novos
chamados a ultrapassar os limites
do nosso ser imperfeito
e elevados à plenitude da vida.

Pelo poder do Espírito Santo
nasceu da Virgem Maria,
alma pura
e coração íntegro –
sinal para as gerações vindouras
do lugar eminente da feminilidade
no desígnio de Deus
para a salvação da humanidade.

Cresceu como nós crescemos
conheceu as idades da vida.
Viveu como nós vivemos,
sujeito às pressões do mal
e centrado no bem.
Ele não rompeu com o mundo
ao qual estava ligado
Não pecou.
Nunca se afastou do pensamento de Deus.
Indicou-nos a Via,
viveu-a por nós
sofreu-a
morreu por ela
para que pudéssemos viver
com um coração novo,
segundo uma mentalidade nova
e com uma força nova
apesar de todas as mortes
a que somos sujeitos todos os dias.

Por nossa causa
e da verdade eterna,
foi perseguido,
atormentado
e executado
por aqueles
que eram os seus próprios deuses
e não respeitavam o sagrado
em ninguém.

Ele sofreu para que pudéssemos compreender
que o espírito em nós
não pode ser morto
qualquer que seja o preço que tenhamos de pagar
para permanecer fiéis ao espírito de Deus.

Morreu
mas não está morto
porque vive em nós
ainda hoje.

"Ao terceiro dia", no sepulcro,
Ele ressuscitou
naqueles que deixava atrás de si
e também em cada um e cada uma de nós
para viver nos corações
que não hão-de sucumbir
perante os inimigos da vida.

Ele mudou a vida toda
para todas e para todos nós, daí em diante.

Subiu à vida de Deus
e aí espera a nossa própria ascensão
à vida para além da vida.

Ele aí espera
julga o que foi
e o que será
segundo os seus valores
e, em nome da virtude eterna,
para o tempo em que toda a vida
será reunida em Deus,
plenitude de vida e de luz,
fundada na verdade.

Creio no Espírito Santo
O sopro de Deus
sobre a Terra
que sem cessar propõe a visão de Cristo
às almas ainda nas trevas,
que dá a vida
mesmo aos corações ainda cegos.
Ele infunde a energia
aos espíritos ainda toscos, isolados
à procura e confusos.

O Espírito falou
ao coração humano
pelos profetas
E dá um sentido novo
à Palavra
através da História.

Creio na Igreja una
santa e universal.
Cimentada pela santidade da criação
e pela santidade dos corações para sempre fiéis.

Reconheço a necessidade
de ser libertada dos constrangimentos
da minha vida agitada
e de receber o perdão
por causa da minha fraqueza.

Procuro a vida eterna
sob formas que nem sonho
e tenho a convicção
de que a criação continua a criar
neste mundo
e em nós
para sempre.
Ámen.

Ámen à criação, ao Deus que é vida, à coragem; à esperança, ao espírito de verdade, à natureza, à felicidade, à integridade, ao lugar das mulheres no plano de Deus, a Cristo que nos chama a ultrapassar os nossos limites, ao perdão, a tudo o que faz da vida o primeiro passo na expansão do nosso coração nas dimensões de Deus.
Ámen. Ámen. Ámen. Podemos com certeza acreditar em tudo isto.
Tal como Deus fez.


Joan Chittister, Ce que je crois, Editions Bellarmin, 2002 (edição francesa de In Search of Belief, Publications Liguori, Mo., USA)
Tradução de Maria de Carvalho Torres publicada em Viragem (Revista do Metanóia – Movimento Católico de Profissionais), Lisboa, nº 50-51 | Maio-Dezembro de 2005



Quisémos, ainda, partilhar outros testemunhos:

Excerto de um email do poeta açoreano, Eduardo Bettencourt, ao escritor, também açoreano, Onésimo Teotónio Almeida, anunciando o nascimento do seu primeiro filho, Mauro.
Onésimo refere este email numa das suas dia-crónicas, publicadas na revista Ler, como um dos exemplos que elevam o email à categoria de texto literário.

Antes que me esqueça, tenho a alegria de te dizer que já sou pai. Nasceu-nos um rapazinho no dia 26 do mês passado. Chama-se Mauro. Enquanto escrevo ele dorme mais a Rosa, lado a lado. Foi uma luz que nos entrou pela casa dentro, cheia de música e insónia. Do seu nascimento guardo a memória de horas incendiadas e intermináveis, o palpitar indelével dum sentimento inebriado de sofrimento. A mulher, com a sua graciosidade, magia e misticismo, traz na sua vida a exuberância, a sensibilidade, uma insuspeitada coragem e determinação para suportar aqueles densos momentos de vulcânicas dores. A mim só me restam os olhos húmidos, a garganta sem voz frente à grandeza de um acontecimento que num repente transforma o mundo, o instante da eternidade. (...) A vida é a mais lógica e misteriosa equação da alma.


Mãe
Mãe
tu és bela como uma rosa.
Não cubras a tua beleza
com pano preto
mas sim
com rosas brancas.
Não cubras a simpatia
com a antipatia
mas sim com um sorriso.

Mãe
tu és uma estrelinha
no céu que ilumina toda a minha vida.
Não te dou um cravo ou uma rosa
porque não tenho jardim,
mas dou-te a flor do meu amor
tão bela tão bela
para quem sabe amar
tanto como tu.


Maria Auxiliadora - 11 anos
in "Cabo Verde visto pelas crianças"



Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora.
Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem?
Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lavacolhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grândola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.


excerto de José Mário Branco, FMI, 1982


Mulher com filha ao colo, em Dezembro
Onde quer que esteja a mãe
debruçada sobre a filha
o Natal pousa
e repousa

Nos longos dedos da mãe
sobre os cabelos da filha
o Natal mora
e demora

Filha dormida na mãe
repetição de Belém
o Natal feito
e perfeito


Depois, rezámos com D. Hélder Câmara, na Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento e D. Pedro Casaldáliga:

Invocação à Mariama
Mariama, Nossa Senhora, mãe de Cristo e Mãe dos homens!
Mariama, Mãe dos homens de todas as raças, de todas as cores, de todos os cantos da Terra.
Pede ao teu filho que esta festa não termine aqui, a marcha final vai ser linda de viver.
Mas é importante, Mariama, que a Igreja de teu Filho não fique em palavras, não fique em aplausos.
O importante é que a CNBB, a Conferência dos Bispos, embarque de cheio na causa dos negros. Como, como entrou de cheio na pastoral da terra e na pastoral dos Índios.
Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem.
Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão, que é comunismo. É Evangelho de Cristo, Mariama.
Mariama, Mãe querida, problema de negro acaba se ligando com todos os grande problemas humanos.
Com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões.
Mariama, que se acabe, mas se acabe mesmo a maldita fabricação de armas. O mundo, o mundo precisa fabricar é Paz. Basta de injustiças!… de uns sem saber o que fazer com tanta terra e milhões sem um palmo de terra onde morar.
Basta de uns tendo que vomitar para comer mais e 50 milhões morrendo de fome num ano só.
Basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia.
Mariama, Senhora Nossa, Mãe querida, nem precisa ir tão longe, como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e o pobres de mãos cheias.
Nem pobre nem rico!
Nada de escravo de hoje ser senhor de escravos amanhã. Basta de escravos. Um mundo sem senhores e sem escravos. Um mundo de irmãos!
De irmãos não só de nome e de mentira. De irmãos de verdade, Mariama!


D. Hélder Câmara


Por fim, acabámos embalados pela Beatriz (coalhada de luz!) que nos cantou:

A Ana quer
A Ana quer
nunca ter saído da barriga da mãe;
cá fora está-se bem
mas na barriga da mãe
era divertido:
coração ali à mão,
os pulmões ali ao pé,
ver como a mãe é
do lado que não se vê.

O que a Ana mais quer ser
quando for grande e crescer
é ser outra vez pequena:
não ter nada que fazer,
só ser pequena e crescer,
de vez em quando nascer
e voltar a desnascer.
A Ana quer...

domingo, abril 30

Baptismo da Sofia

Como nos ensinou em tempos o Zé Dias, "o Baptismo é sempre um gesto comunitário em que está comprometida a Igreja local e, com ela, a Igreja universal".
A Sofia é hoje acolhida na nossa Comunidade João XXIII, da qual quer fazer parte e porque os seus pais acreditam que, nesta comunidade, "o Espirito Santo torna presente e actual a salvação de Jesus Cristo".
A Sofia vai crescer também na Sala da Luz, como têm vindo a fazer a Sara, a Carolina ou o Luís, e em tempos o fizeram o David, a Luísa, a Rita e muitos outros.
À Sofia queremos dizer hoje que é bem vinda à Sala da Luz. Que acreditamos que em havendo luz, há vida e esplendor – no riso das crianças e no seu olhar; numa caminhada pelos montes ou numa refeição partilhada; num arco-íris criado num vaso de água ou numa vela acesa; nos versos da Sophia ou num quadro de Botticelli.
Por isso, às vezes, damos menos importância ao rito e mais relevância à procura sincera e profunda de Deus e do seu Mistério. Muitas vezes em nós próprios, num caminho difícil, de silêncios ou partilha, de momentos mais sombrios ou mais luminosos.
Sofia, vamos pedir-te para fazer um desenho ou para trazeres uma flor. Acreditamos que vendo-te crescer também nós cresce[re]mos contigo
E como símbolo deste acolhimento que te queremos fazer hoje, gostaria de te beijar os pés, como gesto que quer significar que vamos ser companheiros de uma longa viagem.

S. Martinho do Bispo, 30 de Abril de 2006


Foi este o Compromisso que a Comunidade, pelas palavras, voz e gestos da Carminho, assumiu hoje com a Sofia!... E foi esta a imagem que lhe oferecemos!

Jean-Baptiste Camille Corot, O Baptismo de Cristo 1844-45, Óleo sobre tela, 385 x 205 cm.
Igreja de Saint-Nicolas-du-Chardonnet, Paris, França.

sexta-feira, abril 21

A paciência da Esperança

Palavras do Samelo, na Celebração da páscoa da sua Mãe Isaltina

Do meu pai, Laurindo, que teve a sua páscoa há 33 anos, recebi o desafio de, como padre, ser uma pessoa pública, sobre quem todos têm uma opinião, positiva ou negativa.
Da minha mãe, Isaltina, que tem a sua páscoa hoje, recebi 3 desafios:
– O primeiro: a paciência da esperança;
– O segundo: o de viver a existência cristã como meio de realização e felicidade — várias vezes me dizia: «filho, estás à vontade: vale mais ser um bom cristão, do que um mau padre!»;
– O terceiro: o de compreender que na Igreja da Santíssima Trindade a minha identidade de padre é relacional: sem deixar de ensinar, tenho muito que aprender; sem deixar de governar, tenho que pôr cada vez mais em prática estruturas de decisão com os outros cristãos; sem deixar de presidir à vida litúrgica, já não sou o único animador.
É que na Igreja da Santíssima Trindade todos os seus membros são irmãos iguais em dignidade, diferentes nas funções e solidários na responsabilidade.
Este terceiro desafio deu-me a minha mãe porque foi militante da Acção Católica Rural, nos tempos do saudoso Pe Saúde.
Pelo dom dos meus pais, Louvado seja Deus!


Álvaro Pires de Évora, Cristo Ressuscitado, c. 1430,
Têmpera sobre madeira, 106 x 76 cm, Szépmüvérzeti Museum,
Budapeste, Hungria.

domingo, abril 16

Páscoa

Cristo Ressuscitou, Aleluia!


Todor Mitrovic (Sérvia), The Resurrection of Christ - Descending into Hell, 2002,
Acrílico sobre madeira.