Na celebração de hoje demos início a um conjunto de reflexões temáticas sobre o Trabalho. Para além disso, pedimos a dois membros da nossa Comunidade que partilhassem connosco o que é o seu trabalho concreto, as angústias e as esperanças, as dificuldades e os desafios que vão sentindo no quotidiano.
A reflexão de hoje centra-se no Trabalho e a Ética e o João Maria André (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) escreveu para nós o texto que publicamos a seguir; a Carminho e o Zé Pureza deram-nos o seu testemunho, que também publicamos.
Para uma (Est)Ética do Trabalho
"Trabalho" é uma palavra que, na linguagem quotidiana, emerge na sua riqueza semântica nas mais diversas situações: "Que trabalho tão difícil!", Foi uma carga de trabalhos!", "Entrou em trabalho de parto", "Deu-me muito trabalho!", "É um trabalho criador"... Os exemplos poderiam repetir-se e, em todos eles, encontraríamos pontos de um arco que se desenha na tensão entre a sua origem etimológica ("tripalium" – instrumento de tortura formado por três paus) e o seu alcance antropológico, que remete para as formas de realização do homem como ser finito, carente e inconcluso. Se é esta dimensão antropológica que reclama uma ética do trabalho, são os seus contornos dolorosos que impõem, por sua vez, a inscrição dessa ética no pathos da existência.
Se o homem é um dos seres que de modo mais desamparado vem ao mundo, o trabalho é condição tanto da sua sobrevivência (nos limites da pura condição biológica), como da sua vivência numa realização em que se supera a satisfação das simples necessidades básicas e materiais. Neste sentido, o trabalho é a forma, mais simples mas simultaneamente mais abrangente, de realização do humano, tanto no plano da imanência (por um lado, na interacção com o meio, o ambiente, as circunstâncias, a natureza, e, por outro lado, na interacção com os outros que nos rodeiam ou que connosco interagem à distância), como no plano da transcendência (quer ao nível da transcendência religiosa a que muitas crenças humanas dão o nome de Deus, quer ao nível da transcendência estética, mística ou utópica, desde o fundo misterioso do Ser à humanidade redimida dos projectos libertadores).
É pelo trabalho que se dá a mediação entre o homem e a natureza. Marx reconheceu-o quando, nos seus Manuscritos, identificou no trabalho alienado uma das formas supremas de desrealização do humano. O que significa que uma ética do trabalho é, antes de mais, uma ética da desalienação, ou seja, uma ética que é simultaneamente libertadora e reapropriadora: libertadora da prática do trabalho como um "opus alienum", libertadora da relação com as coisas pelo seu carácter de mercadoria que reconfigura também o trabalho como mercadoria, e libertadora da dimensão escravizante do próprio trabalho. Mas, neste sentido, e consequentemente, uma ética do trabalho é também uma ética da reapropriação: o homem deve eticamente lutar por uma relação humanizante com os objectos em que se materializa a sua pulsão de vida e o seu esforço de existir e com o processo dinâmico dessa interacção que tem o nome de trabalho.
Esta ética da libertação e da reapropriação não deixará de ter implicações na relação que o homem mantém com aquilo que se pode considerar o prolongamento do seu corpo orgâ-nico e inorgânico: a natureza. Por esse motivo, uma ética do trabalho é também uma ética da natureza. E como não há ética da natureza sem a dimensão do belo e da harmonia, não pode haver uma ética do trabalho e da natureza sem uma estética da natureza: o trabalho reconfigura-se eticamente pelo "bom", sendo o bem o que funda a sua estru-turação, organização e efectivação. Mas o trabalho deixa-se também esteticamente pola-rizar pelo belo, não podendo haver um trabalho eticamente bom que não reconduza o homem à pro-dução e coprodução da beleza e à sua contemplação. Se, como diziam os antigos e os medie-vais, tudo o que é a partir do bom e do belo, também tudo o que é ao bom e ao belo retorna.
Mas é igualmente pelo trabalho que se dá a mediação entre o homem e os outros homens. Tudo começa pelo trabalho de parto: na aparente imobilidade da mãe se concentra o esforço para dar existência autónoma ao que fazia parte integrante da sua existência. O trabalho de parto é a situação prototípica de uma ética do trabalho assumida, antes de mais nada, como uma ética do cuidado. Trabalhar é cuidar dos outros e com os outros, na gratuidade plena do gesto, na oferta e no dom de si, sem esperar recompensa ou lucros e sem indagar da sua utilidade mercantil. Mas essa ética do cuidado é também uma estética do cuidado. Não é por acaso que a expressão "trabalho de parto" encontra uma das suas mais eloquentes traduções na expressão "dar à luz". E é também significativo que, desde Platão, uma das linhas mais marcantes da estética ocidental é justamente a estética da luz. E se a situação de parto é uma das mais originais situações de trabalho, pode dizer-se, literalmente, que trabalhar é dar à luz, dar à luz com cuidado, cuidar de dar à luz e cuidar de quem ou de quê se dá à luz. O que implica, ao lado do cuidado, a inscrição da harmonia em todas as situações e relações de trabalho que se estabelecem depois do primeiro trabalho, que é o trabalho de parto. Estar eticamente numa relação de trabalho é estar eticamente numa relação de harmonia com os outros e numa relação de equilíbrio com o seu mundo. Estar eticamente no trabalho é, no mais fundo desta expressão, habitá-lo, morar nele e fazer com ele a nossa morada (ou não significasse a palavra grega ethos habitação ou morada). Uma ética do trabalho é uma ética do cuidado, uma ética dos afectos e uma ética da solidariedade, que se funda no Princípio-responsabilidade (Hans Jonas).
Finalmente, o trabalho é também a forma como o homem se transcende a si próprio: naquilo que cria através do trabalho prolonga-se e preserva-se o homem no mundo, na memória do mundo e na memória dos homens. Mas este processo de transcendência é um processo que nos abala na nossa individualidade egóide e auto-suficiente e nos projecta no mistério do ser que nos ultrapassa. Os místicos chamaram-lhe nada, os santos chamaram-lhe deus, os metafísicos chamaram-lhe Grund, Urgrund ou fundamento, e os artistas chamaram-lhe fonte e plenitude de luz e de beleza. E é aqui que reside o carácter paradoxal do trabalho: ao mesmo tempo que é a nossa afirmação, é também a nossa desafirmação, porque é a nossa projecção no mundo do ser e o reconhecimento da nossa finitude, ou seja, do nosso não-ser. Neste sentido, a ética do trabalho é uma ética da ligação com os outros e com o mundo que somos e sabemos, e com os outros, o Outro, o mundo que não somos nem sabemos: a ética do trabalho é, assim, uma ética da re-ligação, ou seja, desemboca numa dimensão religiosa que, tantas vezes, se funde com a dimensão estética. "Se não sabemos do mundo senão o que dele tivermos feito" (Jorge de Sena), o que nele e dele fazemos mais não é do que o mar profundo e infinito do nosso não saber, que é o saber e o sabor dos nossos sentidos e que é também o sentido do nosso saber. E é curioso que tenha sido para falar desse saber e desse sabor dos sentidos que os modernos criaram a palavra estética. O que nos reforça na nossa convicção de que uma ética do trabalho é uma estética do trabalho: a fruição do seu gozo na desalienação do mundo (libertação do mundo), na desalienação dos outros (libertação dos homens), e na desalienação dos sentidos últimos da nossa existência (libertação suprema do bem a que aspiramos e por que esperamos). Uma ética do trabalho não é apenas uma ética fundada no Princípio-responsabilidade. É também um (est)ética da esperança. Fundada no Princípio-esperança (Ernst Bloch). É uma (est)ética da libertação.
Coimbra, Fevereiro de 2006
João Maria André
Testemunhos
Sinto-me privilegiado por ter o trabalho que tenho. Ensino(-me) a ler e a interpretar a realidade do mundo. Ter como profissão uma paixão é isso mesmo: um privilégio. Eu faço o que gosto. E cada vez gosto mais do que faço.
Mas o meu trabalho é muito difícil. Sou capaz de identificar quatro fontes de dificuldade. A primeira é a da complexidade. Trabalho com escalas mundiais e decifro sinais de guerra e de paz. Nestas coisas, quanto mais se abre o campo de análise mais a complexidade invade o nosso olhar e nos impede o uso de receitas redutoras e cómodas. Daqui advém um segundo factor de dificuldade: a exigência de rigor. Ter que identificar as boas fontes de informação, construir e desconstruir narrativas sobre a realidade, aproximarmo-nos o mais possível da exactidão, encontrar serenidade para fazer tudo isto com elevado profssionalismo e profundidade intelectual é uma tarefa de gigante. A terceira dificuldade é não abdicar de casar conhecimento rigoroso com transformação da realidade. Conheço para mudar, não para conservar. E isso faz-me correr o risco do viés, da paixão, do manifesto. Por fim, a dificuldade da sedução. Ensinar é cativar, é tornar atraente o trabalho de ler e de pensar. Há artes cénicas que quem ensina não pode ignorar.
Eu sou um privilegiado por ter esta profissão. Mas estar à altura deste privilégio é muito difícil.
José Manuel Pureza
domingo, fevereiro 5
domingo, novembro 13
Redescoberta do Cuidado pelo Outro
(Texto lido na celebração de Domingo 13/11/2005)
O cuidado pelo outro, uma expressão comum, reflecte pensamentos e emoções simples: torna os humanos capazes de velar pela Natureza, de se interessarem activamente uns pelos outros, e de manterem a sociedade coesa. É o cuidado pelos outros que motiva atitudes e acções que mostram a sua interdependência, assim como a das comunidades e nações; ninguém está isolado, mas sim consciente de uma fundamental alteridade.
“Cuidar de” significa também apreciar e amar; ocupar-se dos outros, seguir de perto, alimentar. “Cuidar de” implica um compromisso que transcende a emoção e se traduz numa acção que ultrapassa o domínio médico ou humanitário (lugares onde o termo cuidado é usado desde há muito). O cuidado pelos outros acrescenta-se à racionalidade para definir os comportamentos. Cuidar é o oposto da indiferença: implica comunicação e uma situação de parceria em que há dar e receber.
Como valor social, o cuidado pelos outros tem sido uma componente do comportamento em todos os estádios da evolução do ser humano. Os cuidados das mães pelos filhos; a atenção prestada aos vulneráveis, aos doentes e velhos. As grandes religiões que surgiram com as civilizações agrárias deram um valor especial aos valores centrais do cuidado, da caridade, até das esmolas, com especial atenção para com os pobres e destituídos, os doentes, as viúvas e os órfãos. O cuidado pelos outros generalizou a compaixão e a partilha, e algumas das religiões estenderam estes sentimentos para além dos humanos e até toda a Natureza.
E apesar disso, verificamos que, de certo modo, as actividades resultantes do cuidado pelo outro tendem a ser menos respeitadas e menos recompensadas do que a actividade produtiva da humanidade. Pior, são muitas vezes invisíveis (talvez porque estão mais intimamente associadas às mulheres).
A comissão pensou que o cuidado pelo outro não deve permanecer escondido. Mesmo quando nenhum valor monetário está associado ao cuidado pelo outro, a sociedade deve estar ciente do custo que teria de suportar se cada manifestação concreta desse cuidado tivesse que ser comprada. A necessidade de tornar visível o cuidado pelo outro não é apenas um imperativo de justiça para aqueles que ajudam os outros a viver e assim absorvem algumas das pressões que se exercem no tecido social. Se o cuidado pelos outros não é considerado como uma dimensão da condição humana, será mais difícil o reajustamento aos nossos diferentes papéis na sociedade - na família, na profissão e nas responsabilidades cívicas. Continuarão as desigualdades entre homens e mulheres se os rapazes e os homens não se empenharem no cuidado pelos outros como fazem as mulheres.
A ética do cuidado pelo outro tem que manifestar-se tanto pública como privadamente. Acabar com a pobreza, restringir o desperdício dos recursos, promover a qualidade de vida dos outros: estes três pontos são a essência do cuidado. E cuidar do ambiente é fundamental para a qualidade de vida e para a sobrevivência, tanto para as outras espécies como para a própria humanidade. Por isso, podemos dizer que a capacidade de carga da Terra depende da capacidade de cuidado da Humanidade.
(Cap. 7 "Responder às Necessidades" de "Cuidar o Futuro: Um Programa Radical para Viver Melhor", Comissão Independente População e Qualidade de Vida - presidida por Maria de Lourdes Pintasilgo. Lisboa, Ed. Trinova, 1998.)
O cuidado pelo outro, uma expressão comum, reflecte pensamentos e emoções simples: torna os humanos capazes de velar pela Natureza, de se interessarem activamente uns pelos outros, e de manterem a sociedade coesa. É o cuidado pelos outros que motiva atitudes e acções que mostram a sua interdependência, assim como a das comunidades e nações; ninguém está isolado, mas sim consciente de uma fundamental alteridade.
“Cuidar de” significa também apreciar e amar; ocupar-se dos outros, seguir de perto, alimentar. “Cuidar de” implica um compromisso que transcende a emoção e se traduz numa acção que ultrapassa o domínio médico ou humanitário (lugares onde o termo cuidado é usado desde há muito). O cuidado pelos outros acrescenta-se à racionalidade para definir os comportamentos. Cuidar é o oposto da indiferença: implica comunicação e uma situação de parceria em que há dar e receber.
Como valor social, o cuidado pelos outros tem sido uma componente do comportamento em todos os estádios da evolução do ser humano. Os cuidados das mães pelos filhos; a atenção prestada aos vulneráveis, aos doentes e velhos. As grandes religiões que surgiram com as civilizações agrárias deram um valor especial aos valores centrais do cuidado, da caridade, até das esmolas, com especial atenção para com os pobres e destituídos, os doentes, as viúvas e os órfãos. O cuidado pelos outros generalizou a compaixão e a partilha, e algumas das religiões estenderam estes sentimentos para além dos humanos e até toda a Natureza.
E apesar disso, verificamos que, de certo modo, as actividades resultantes do cuidado pelo outro tendem a ser menos respeitadas e menos recompensadas do que a actividade produtiva da humanidade. Pior, são muitas vezes invisíveis (talvez porque estão mais intimamente associadas às mulheres).
A comissão pensou que o cuidado pelo outro não deve permanecer escondido. Mesmo quando nenhum valor monetário está associado ao cuidado pelo outro, a sociedade deve estar ciente do custo que teria de suportar se cada manifestação concreta desse cuidado tivesse que ser comprada. A necessidade de tornar visível o cuidado pelo outro não é apenas um imperativo de justiça para aqueles que ajudam os outros a viver e assim absorvem algumas das pressões que se exercem no tecido social. Se o cuidado pelos outros não é considerado como uma dimensão da condição humana, será mais difícil o reajustamento aos nossos diferentes papéis na sociedade - na família, na profissão e nas responsabilidades cívicas. Continuarão as desigualdades entre homens e mulheres se os rapazes e os homens não se empenharem no cuidado pelos outros como fazem as mulheres.
A ética do cuidado pelo outro tem que manifestar-se tanto pública como privadamente. Acabar com a pobreza, restringir o desperdício dos recursos, promover a qualidade de vida dos outros: estes três pontos são a essência do cuidado. E cuidar do ambiente é fundamental para a qualidade de vida e para a sobrevivência, tanto para as outras espécies como para a própria humanidade. Por isso, podemos dizer que a capacidade de carga da Terra depende da capacidade de cuidado da Humanidade.
(Cap. 7 "Responder às Necessidades" de "Cuidar o Futuro: Um Programa Radical para Viver Melhor", Comissão Independente População e Qualidade de Vida - presidida por Maria de Lourdes Pintasilgo. Lisboa, Ed. Trinova, 1998.)
domingo, outubro 9
Salmo, cantado por Bobby McFerrin
1 Salmo de David.
O SENHOR é meu pastor: nada me falta.
The Lord is my Shepard: I have all I need.
2 Em verdes prados me faz descansar
She makes me lie down in green meadows,
e conduz-me às águas refrescantes.
Beside the still waters, she will lead.
3 Reconforta a minha alma
She restores my soul
e guia-me por caminhos rectos, por amor do seu nome.
She rights my wrongs, She leads me in a path of good things,
And fills my heart with songs.
4 Ainda que atravesse vales tenebrosos
Even though I walk, through a dark and dreary land,
de nenhum mal terei medo
there is nothing that can shake me
porque Tu estás comigo.
She has said She won't forsake me,
A tua vara e o teu cajado dão-me confiança.
I'm in her hand.
5 Preparas a mesa para mim,
She sets a table before me,
à vista dos meus inimigos;
In the presence of my foes,
ungiste com óleo a minha cabeça;
She anoints my head with oil,
a minha taça transbordou.
And my cup overflows.
6 Na verdade, a tua bondade e o teu amor
Surely, surely goodness and kindness
hão-de acompanhar-me todos os dias da minha vida,
Will follow me all the days of my life,
e habitarei na casa do SENHOR
And I will live in her house,
para todo o sempre.
Forever, forever and ever.
Glory be to our Mother, and Daughter,
And to the Holy of Holies,
As it was in the beginning, is now and ever shall be,
World, without end. Amen.
Celebração de 9 de Outubro de 2005, tendo passado a integrar o cancioneiro
O SENHOR é meu pastor: nada me falta.
The Lord is my Shepard: I have all I need.
2 Em verdes prados me faz descansar
She makes me lie down in green meadows,
e conduz-me às águas refrescantes.
Beside the still waters, she will lead.
3 Reconforta a minha alma
She restores my soul
e guia-me por caminhos rectos, por amor do seu nome.
She rights my wrongs, She leads me in a path of good things,
And fills my heart with songs.
4 Ainda que atravesse vales tenebrosos
Even though I walk, through a dark and dreary land,
de nenhum mal terei medo
there is nothing that can shake me
porque Tu estás comigo.
She has said She won't forsake me,
A tua vara e o teu cajado dão-me confiança.
I'm in her hand.
5 Preparas a mesa para mim,
She sets a table before me,
à vista dos meus inimigos;
In the presence of my foes,
ungiste com óleo a minha cabeça;
She anoints my head with oil,
a minha taça transbordou.
And my cup overflows.
6 Na verdade, a tua bondade e o teu amor
Surely, surely goodness and kindness
hão-de acompanhar-me todos os dias da minha vida,
Will follow me all the days of my life,
e habitarei na casa do SENHOR
And I will live in her house,
para todo o sempre.
Forever, forever and ever.
Glory be to our Mother, and Daughter,
And to the Holy of Holies,
As it was in the beginning, is now and ever shall be,
World, without end. Amen.
Celebração de 9 de Outubro de 2005, tendo passado a integrar o cancioneiro
segunda-feira, julho 11
oração penitencial
Senhor, nosso Deus, diante da imensidão do mar e dos milhões de milhões de grãos de areia, experimentamos melhor a nossa pequenez e sentimo-nos convocados a pedir o teu perdão
Perdoa-nos, Pai, porque não confiámos. O nevoeiro da podridão humana, feito de pedofilia, de corrupção, de mediocridade mediática e de violência, toldou-nos o olhar e deixámo-nos dominar pela desesperança. Construímos esta Comunidade com as pedras do entusiasmo e do arrojo. Mas, este ano que passou, fomos muitas vezes homens e mulheres de pouca fé. Desculpa, Pai.
Perdoa-nos, Pai, porque cuidámos pouco deste pedacito da tua Igreja. Contentámo-nos em sermos poucos, em sermos pouco exigentes com a nossa formação, satisfizemo-nos com o discurso comum sobre a escolha do Papa, do perdão da dívida dos países mais pobres ou das opções da guerra e da paz, mantivemo-nos confortavelmente distantes dos novos e difíceis debates sobre investigação teológica, ciência e cultura e fomos gerindo, domingo a domingo, a nossa permanência. Devíamos ter dado muito mais frutos. Desculpa, Pai.
Perdoa-nos, Pai, porque deixámos que o silêncio se abatesse sobre as nossas dificuldades. Os desamores dos nossos filhos, e os nossos, mal disfarçados, a vertigem da desistência que se atravessou tantas vezes no nosso caminho, o abandono da fé em Jesus de alguns que começaram esta aventura connosco. Todos esses e outros problemas da vida passaram pouco por dentro da nossa Comunidade. Desculpa, Pai.
Perdoa-nos, Pai, pela nossa incoerência. Fomos fustigados pela verdade dos sem-abrigo e dos excluídos de Coimbra e não nos dispusemos a mais do que a reunir de emergência ama mão cheia de cobertores. Fomos despertados para a condição precária da nossa irmã Hermínia, uma entre tantas outras, e, querendo ser solidários, garantimos-lhe o sustento mas não tocámos mais fundo a sua condição humana frágil. Somos gente com vontade de fazer o bem. Mas falta-nos ambição e radicalidade. Por isso, desculpa Pai.
Perdoa-nos, Pai, porque continuamos a emocionar-nos muito mais com a morte do que com a vida. A irmã morte já nos visitou várias vezes e deixou-nos arrasados, com um terrível sentimento de perda e de incredulidade. Estranhamente, não fomos capazes de perceber outros momentos – o regresso de alguém que andou longe, o empenhamento denso e exigente de tantos de nós na política, na escola, na profissão, no associativismo, a oportunidade de um horizonte renovado para a Hermínia, a dádiva gratuita do Zé Pedro a crianças órfãs nos confins do Peru – como sinais fascinantes de uma vida que se nos dá com surpresa e admiração e que compensa a dor com a alegria e a perda com a noção de construção permanente. Por isso, desculpa Pai.
Perdoa-nos, Pai, por estes e outros pecados contra ti, isto é, contra cada um dos mais pequeninos que nos é próximo. Dá-nos força para continuarmos a acreditar que esta Comunidade é sinal de vida nova e ajuda-nos a superar os nossos abatimentos e as nossas desilusões. Mostra-nos, como só Tu sabes, que a construção da vida em abundância está sempre à frente no nosso caminho.
Perdoa-nos, Pai, porque não confiámos. O nevoeiro da podridão humana, feito de pedofilia, de corrupção, de mediocridade mediática e de violência, toldou-nos o olhar e deixámo-nos dominar pela desesperança. Construímos esta Comunidade com as pedras do entusiasmo e do arrojo. Mas, este ano que passou, fomos muitas vezes homens e mulheres de pouca fé. Desculpa, Pai.
Perdoa-nos, Pai, porque cuidámos pouco deste pedacito da tua Igreja. Contentámo-nos em sermos poucos, em sermos pouco exigentes com a nossa formação, satisfizemo-nos com o discurso comum sobre a escolha do Papa, do perdão da dívida dos países mais pobres ou das opções da guerra e da paz, mantivemo-nos confortavelmente distantes dos novos e difíceis debates sobre investigação teológica, ciência e cultura e fomos gerindo, domingo a domingo, a nossa permanência. Devíamos ter dado muito mais frutos. Desculpa, Pai.
Perdoa-nos, Pai, porque deixámos que o silêncio se abatesse sobre as nossas dificuldades. Os desamores dos nossos filhos, e os nossos, mal disfarçados, a vertigem da desistência que se atravessou tantas vezes no nosso caminho, o abandono da fé em Jesus de alguns que começaram esta aventura connosco. Todos esses e outros problemas da vida passaram pouco por dentro da nossa Comunidade. Desculpa, Pai.
Perdoa-nos, Pai, pela nossa incoerência. Fomos fustigados pela verdade dos sem-abrigo e dos excluídos de Coimbra e não nos dispusemos a mais do que a reunir de emergência ama mão cheia de cobertores. Fomos despertados para a condição precária da nossa irmã Hermínia, uma entre tantas outras, e, querendo ser solidários, garantimos-lhe o sustento mas não tocámos mais fundo a sua condição humana frágil. Somos gente com vontade de fazer o bem. Mas falta-nos ambição e radicalidade. Por isso, desculpa Pai.
Perdoa-nos, Pai, porque continuamos a emocionar-nos muito mais com a morte do que com a vida. A irmã morte já nos visitou várias vezes e deixou-nos arrasados, com um terrível sentimento de perda e de incredulidade. Estranhamente, não fomos capazes de perceber outros momentos – o regresso de alguém que andou longe, o empenhamento denso e exigente de tantos de nós na política, na escola, na profissão, no associativismo, a oportunidade de um horizonte renovado para a Hermínia, a dádiva gratuita do Zé Pedro a crianças órfãs nos confins do Peru – como sinais fascinantes de uma vida que se nos dá com surpresa e admiração e que compensa a dor com a alegria e a perda com a noção de construção permanente. Por isso, desculpa Pai.
Perdoa-nos, Pai, por estes e outros pecados contra ti, isto é, contra cada um dos mais pequeninos que nos é próximo. Dá-nos força para continuarmos a acreditar que esta Comunidade é sinal de vida nova e ajuda-nos a superar os nossos abatimentos e as nossas desilusões. Mostra-nos, como só Tu sabes, que a construção da vida em abundância está sempre à frente no nosso caminho.
domingo, junho 19
Credo da Confiança
Creio por isso confio.
Creio num só Deus, num Deus que é amor, por isso confio que a História caminha para o Bem.
Creio que Deus é Pai, por isso confio nos irmãos que vivem ao meu lado, mesmo naqueles de quem deveria desconfiar.
Creio que Jesus de Nazaré é Cristo, que pela Sua vontade habitou entre nós, por isso confio num Deus que tomou a iniciativa de nos amar primeiro.
Creio que Jesus viveu como nós, de maneira totalmente humana, por isso confio que tudo o que é plenamente humano é bom, porque também Deus o experimentou.
Creio que Jesus viveu pregando o bem e a liberdade plena, por isso confio no testemunho de vida.
Creio que Cristo subverteu a ideia de Deus: foi condenado pelos homens do seu tempo e aceitou morrer na cruz, por isso confio que mais vale perdoar do que vingar-se.
Creio que Jesus ressuscitou ao terceiro dia, por isso confio que não estamos condenados ao nada.
Creio que como o vento, o Espírito Santo sopra onde e quando quer, por isso confio que onde menos esperamos podemos encontrar a verdade e o bem.
Creio na Igreja-Povo de Deus, simultaneamente una e diversa, santa e imperfeita, Católica e apostólica, por isso confio que vale a pena participar na comunidade crente.
Creio num só Deus, num Deus que é amor, por isso confio que mais vale amar.
Creio num só Deus, num Deus que é amor, por isso confio que a História caminha para o Bem.
Creio que Deus é Pai, por isso confio nos irmãos que vivem ao meu lado, mesmo naqueles de quem deveria desconfiar.
Creio que Jesus de Nazaré é Cristo, que pela Sua vontade habitou entre nós, por isso confio num Deus que tomou a iniciativa de nos amar primeiro.
Creio que Jesus viveu como nós, de maneira totalmente humana, por isso confio que tudo o que é plenamente humano é bom, porque também Deus o experimentou.
Creio que Jesus viveu pregando o bem e a liberdade plena, por isso confio no testemunho de vida.
Creio que Cristo subverteu a ideia de Deus: foi condenado pelos homens do seu tempo e aceitou morrer na cruz, por isso confio que mais vale perdoar do que vingar-se.
Creio que Jesus ressuscitou ao terceiro dia, por isso confio que não estamos condenados ao nada.
Creio que como o vento, o Espírito Santo sopra onde e quando quer, por isso confio que onde menos esperamos podemos encontrar a verdade e o bem.
Creio na Igreja-Povo de Deus, simultaneamente una e diversa, santa e imperfeita, Católica e apostólica, por isso confio que vale a pena participar na comunidade crente.
Creio num só Deus, num Deus que é amor, por isso confio que mais vale amar.
domingo, junho 12
"Dimensão social da fé"
«Fiéis à Verdade, irmãos e irmãs, continuemos a participação na realeza de Cristo, servindo como Ele, Senhor e Mestre, fez e ensinou. Este é o caminho: cristãos no aconchego da intimidade pessoal; cristãos no interior do lar, como esposos, pais e mães e filhos, em "igreja doméstica"; cristãos na rua, como homens e mulheres situados; cristãos na vida em comunidade, no trabalho, nos encontros profissionais e empresariais, no grupo, no sindicato, no divertimento, no lazer, etc.; cristãos na sociedade, ocupando cargos elevados ou prestando serviços humildes; cristãos na partilha da sorte dos irmãos menos favorecidos; cristãos na participação social e política; enfim, cristãos sempre, na presença e glorificação de Deus, Senhor da vida e da história.»
(João Paulo II, Leigos comprometidos na Igreja e no mundo, Disc. na Sé Catedral de Lisboa, 12 de Maio de 1982)
(João Paulo II, Leigos comprometidos na Igreja e no mundo, Disc. na Sé Catedral de Lisboa, 12 de Maio de 1982)
domingo, junho 5
a bondade é mais forte
Há uma espécie de restrição, de fechamento na culpabilidade e no mal. Eu não subestimo de forma nenhuma este problema. Mas aquilo que tenho necessidade de verificar é que, por muito radical que seja o mal, não é tão profundo como a bondade. E se a religião, as religiões, têm um sentido, é precisamente o de libertar o fundo de bondade dos homens, de o procurar onde ele está completamente escondido.
Nós andamos sobrecarregados pelos discursos, pelas polémicas, pelo assalto do virtual; hoje há como que uma zona opaca e existe esta certeza profunda a libertar, a resgatar; a bondade é mais profunda que o mal mais profundo. Não basta sentir isto. É preciso dar-lhe uma linguagem. Para mim, a liturgia não é simplesmente uma acção. É um pensamento. Na liturgia encontra-se uma teologia escondida, discreta, que se resume nesta ideia: “A lei da oração é a lei da fé”.
Pertencemos à civilização que efectivamente matou Deus, isto é, que fez prevalecer o absurdo e o sem-sentido sobre o sentido. Eu penso que há nisso um protesto profundo. O protesto situa-se ainda no pólo negativo: diz não ao não. O movimento do protesto para a atestação passa pela oração. Esta manhã os cânticos, as orações tinham a forma do vocativo: “Oh” no exortativo e na aclamação. Penso que aclamar a bondade é o hino fundamental.
Gosto muito da palavra felicidade. Saúdo-a como um reconhecimento nos três sentidos da palavra: reconheço-a como sendo minha, aprovo-a no outro e tenho gratidão por aquilo que dela conheci, essas pequenas felicidades, entre as quais as da memória para me curar das grandes desgraças do esquecimento. (Paul Ricoeur)
Nós andamos sobrecarregados pelos discursos, pelas polémicas, pelo assalto do virtual; hoje há como que uma zona opaca e existe esta certeza profunda a libertar, a resgatar; a bondade é mais profunda que o mal mais profundo. Não basta sentir isto. É preciso dar-lhe uma linguagem. Para mim, a liturgia não é simplesmente uma acção. É um pensamento. Na liturgia encontra-se uma teologia escondida, discreta, que se resume nesta ideia: “A lei da oração é a lei da fé”.
Pertencemos à civilização que efectivamente matou Deus, isto é, que fez prevalecer o absurdo e o sem-sentido sobre o sentido. Eu penso que há nisso um protesto profundo. O protesto situa-se ainda no pólo negativo: diz não ao não. O movimento do protesto para a atestação passa pela oração. Esta manhã os cânticos, as orações tinham a forma do vocativo: “Oh” no exortativo e na aclamação. Penso que aclamar a bondade é o hino fundamental.
Gosto muito da palavra felicidade. Saúdo-a como um reconhecimento nos três sentidos da palavra: reconheço-a como sendo minha, aprovo-a no outro e tenho gratidão por aquilo que dela conheci, essas pequenas felicidades, entre as quais as da memória para me curar das grandes desgraças do esquecimento. (Paul Ricoeur)
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